terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Unibandalheira: uma anatomia do "Caso Geisy"



                 Quem é o culpado? A própria universidade. Quando não estatui o seu modelo disciplinar, quando não há um regimento interno, ou, se há, não o faz valer. Conforme declarações públicas de alguns alunos e, também, da personagem vitimizada, não é de hoje acontecerem manifestações relacionadas à "indumentária" e à, digamos, "exuberância" de tal aluna. O que houve, na realidade, foi um excesso no tipo de manifestação, uma espécie de extravasamento de um sentimento latente e coletivo, paulatinamente acumulado, em que se deu o estopim num determinado gesto ou atitude vulgar.

                 Que tipo de sentimento seria este? Bem, não é difícil imaginar, considerando que a população discente é composta, na maioria, por adolescentes, e que os níveis da testosterona sejam, de fato, elevados. Isto, acrescido ao estado libertino qual se permite esta casa de ensino, haja vista a quantidade de estudantes que ficam perambulando a esmo, constituiu a pré-mistura. Farinha e fermento para um bolo. Faltava a gota d'água, ou, mais apropriadamente — em se tratando de bolo, é claro —, o tanto do leite. A questão é: se a massa não é moldada e vá, imediatamente, ao forno, é previsível que desande ou, até, cresça e rebente. A essa equação temporal é que uma reitoria não poderia se furtar.

                 A multidão, assomada pela histeria, em que haja contribuído a desinformação ou até algum boato capcioso, imitou estouro de boiada. Improvável seja que cerca de 700 alunos tenham tomado, ao mesmo tempo, conhecimento do fato originário. Mas não se descarte, no seu bojo, a mera curiosidade, qual deflagrou tumulto. Dadas as condições arquitetônicas, o próprio vão do edifício proporcionaria a reverberação do vozerio e do ruído das passadas, fazendo com que aqueles alunos que não estivessem à deriva, nos corredores, e, sim, adentrados nas salas de aula, se evadissem e participassem, sem mesmo saber do quê. Mais uma vez, peca a universidade em virtude da permissividade, aliada à falta de pulso dos seus docentes.

                 Ao grupo inicial que, sentindo-se incitado, e, em assim sendo, se permitiu assediá-la, mormente na obtenção de "privilegiado" ângulo fotográfico, se ajuntou outro, formando a turba, ao melhor estilo Talibã. Frustradas intenções passariam, primeiro, a sitiar o sanitário, para, em seguida, submetê-la à execração, onde desafetas vozes femininas também comporiam esse coro. Se, por um lado, sucedeu constrangimento e difamação, por outro, não há registro ou prova cabal de quaisquer danos físicos. Mesmo, sequer, dessa intencionalidade, como alguns pretenderiam. Basta examinar as imagens e os sons dos vídeos, amplamente divulgados, ao rigor da imparcialidade, corroborados pelo natural depoimento da protagonista.

                 Uma análise responsável não pode ser excludente, ainda que superficial. Anexe-se, então, a ela, um breve perfil do pivô: maior, tipo caucasiano, não esbelta, não bela, proletária, aluna de curso de Turismo em universidade privada. É de se recear que, nos devaneios da impubescência, já buscasse algum compensatório. Veria, na confessa vaidade, ainda que em duvidosa estética, o caminho da autoafirmação e ou da aceitação.

                 Não obstante se coloquem em cheque os valores morais e os de ordem comportamental, em que a mídia aproveitadora, tendenciosa e sensacionalista — como tem sido a praxe — busque manipular a opinião pública, atacando a discriminação, não residiria, aí, o fulcro. A tese é bem mais complexa, envolvendo até um desregramento, no que tange ao processo dito democrático. Não se extraia, daí, apologia ao retrocesso, mas a desordem e a impunidade têm sido a tônica desse estado.

                 Permito-me uma ilação: qual seria a diferença entre os marmanjos do tal estabelecimento de ensino e operários de um canteiro de obras? Praticamente, nenhuma. Com a popularização dos aparelhos de telefonia móvel, vulgo "celulares", com câmeras embutidas, além dos contumazes gracejos ou apupos, não faltaria, aos segundos, o desejo, também, de registrar fortuitas imagens. Ressalve-se somente um senão: caso viessem a perseguir a dita cuja com este intento, abandonando, assim, seus postos, por certo perderiam seus empregos. Mas não é tão ou mais sagrado o lugar onde se ganha o pão edificando a casa alheia?

                 Um tsunami de hipocrisias é o que vem inundando as combalidas fortalezas da ética. A insólita reação da cambada, travestida por supostos preceitos, é o que vem causar comoção. Pois não se turve a vista ante aquilo que constituiu um verdadeiro e atual estrato da sociedade, um extrato dos valores vigentes. Principalmente, se a vaga universitária possa ser vilipendiada através do reles ato comercial.

                 Traficante de drogas portar arma, ostensivamente, no morro, pode? Pode. Viciado fumar crack ou maconha em via pública, pode? Pode. Motorista alcoolizado atropelar pedestres e pagar fiança para sair da cadeia, pode? Pode. Governador de estado promover festival de corrupção em palácio, pode? Pode. Então, Mauricinho que frequente faculdade particular e queira fotografar a parte mais interna e superior das coxas de uma Patricinha, também pode, não é?

                 O que não se pode é dizer que ela tenha feito questão de mostrá-la. Ou pode?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ave Geisy

Perdoai as despeitadas
Desbundadas descoxadas
Que do alto daquelas sacadas
Imprecaram-te, mazeladas

Naturismo
Culturismo
Futurismo

Ah, quantas faculdades
Advêm dessas vaidades

Quando à rampa acessa
A tua graça altaneira
Exclama a turba possessa:
Trepa tão bem a rampeira!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Na Ponte dos Ingleses


Do galeão do Pirata
Se estende amotinada

Chamam-na Ponte
Resquícios dos ingleses

Brincando de Gancho
Pernapautei duas vezes

Ah, eu me garrancho

Nas frestas do tabuão
Os murmúrios são franceses

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fatoriais Infrações

                 De costas para a cama, eu fracionava momentos através das teclas, como se os houvesse em receios de esvanecer. Ou só querendo nutrir neuroses colecionadoras.

                 A cama, ampla, na estrutura e nos sentidos, bem no seu meio retinha a nudez, e bem no meio dessa nudez um rego dividia-me, múltiplo. Toda aquela indolência se comprazendo, por entre as arreganhadas capas, com cada página desvirginizada. Ela adorava ler. Ler e ser.

                 Bastava um giro na cadeira para que eu desfrutasse. Mas não cabiam essas banalidades. O reflexo na tela era o tanto necessário, o quantum satis do que nos tornava sutis — jogo roubado, regras proscritas. Eu gostava disso. Desse senso absoluto daquilo que se possa desentender e que alguns insistem prender em uma só palavra. Liberdade?

                 Do nada, eu cuspo na tela; cuspo em mim mesmo, cuspo na minha insuficiência. Cuspo na presunção. Num átimo irascível, me torço. Alavanco-me e faço a cadeira ceder espaço, impelida por sobre os rodízios. Do mesmo nada me lanço, esquálido bote que redundará em risadas. Fatoriais risadas, infrações divididas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Predador

                 A mola da vida já forçou 53 dentes nessa engrenagem que não retroage. Apesar dos cigarros, o olfato continua muito cru. Quem se sofisticou foi o apetite, justificando exigência aos caninos.

...

                 A invasão da luminescência esbarra nas frestas da persiana. Rasteiro, espreito respiração, movimento mínimo que aguce. O fugidio atiça, orelhas felinas captando o lânguido espreguiçar nas estepes, acetinada denúncia da pilosidade feminina.

                 Sorrateiro, aperitivo seu pé; geme, ferida. Lambo a cor da epiderme, abocanho a junta que se desdobra; defende-se, entregando. Cravo os lábios na jugular e me sacio no estertor.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pré


Quereria fazer um poema
Todo explicadinho
Uma espécie de carinho
Rasgado, um teletema

Mas lá se foi, inédito
O rimado pelo ar
Quando acabou o crédito
Do meu celular

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Requerimento

                 Jarbas Silibim, nome de fantasia “Sofazão do Camarada Jarbanski”, vem, mui resputosamente, requerer a circuncisão do seu negócio nesta Jumenta Comercial.

                 Para tanto, declara nunca ter sido fichado, graças ao bom deus e à amizade do delegado Silveirinha.

                 Roga, ainda, se possível, apressamento no despacho, já colocando à disposição dos senhores vogais livre acesso ao nosso modesto suíngue, onde serão muito bem recebidos por limpinhas consoantes.

                 Sem mais-mais,

                                 N.T.

                                 P.D.

                                 Cacimbinhas, 29 de outubro de 2009

                                 (assinatura ilegível)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Perfunctório

                 Ah, pensará o querido leitor, lá vem a excentricidade vocabular! Uma outra ainda dirá: enfim, consulta dicionários. Sim, minha cara, eu, vez maneira, perlustro léxicos. No minifúndio feito estante, ao que muxibentas carnes percorrem, existe, até, um Lello Universal. Donde se criva o madraçal, patíbulo que antecede o tosco madeiro.

                 Deixemos que esta airada verborréia se esparza e vamos ao que cumpre. Ao fulcro. Ao cerne. De que adianta me valer de tretas, se não me avenho, todavia, com as Letras? Penso. Respondo-me: és, de graça e por desgraça, um efeito perfunctório. De fato, peremptório flato.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Teorias Supositórias

                 O palco concentrou à meia-luz, anil convergindo ao rufo. A equipe viria com uma formação escalafobética – rígida, porém: no arco, um baita tamborzão; corpos dobrados em linha defensiva; reforçado serviço de meio, com um címbalo volante; e, adiantado, serelepe quarteto, gracilidade feminil no tabaque. Isto, sim, à genuidade, é o que se poderia chamar de misto a um time. Não faltara torcida. Que já bem se organizava, no transcorrer, tocando flautas, parecendo invadir. O estádio Jô Soares silenciou: desabaria, esfuziante, centenário placar de palmas. Merecido, e muito, pelo taiko.

                 ...

                 Num istmo de pedras luzidias, o pensamento escorreu, falsa-baiana, às ladeiras. Antes do derradeiro embate zerado e antes, ainda, daquele fiasco pró-boliviano, a Seleção escorraçara, festejada a Olodunga. Deletério, enxerguei milenares olhinhos enviesados por trás de um cafuzo sincretismo de batuques. Não é isso. Se fosse, a Copa seria, sempre, amarela, jamais canarinha. Mas, entenda-me, meu caro Zangalo: o que cala são as cores da alma. Não esse branco de neve, que, quando muito, não passa de um pastel. Até 2010. Atchim.

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Livremente inspirado no vídeo sugerido por este tópico:

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Puteiro Amado, Brasil!

(historieta hipodidática)



                 De primeiro, chegaram uns pleibóis, com suas caravelas tunadas. Foderam com a mata. Foderam com as índias. Foderam com tudo. Pagavam em miçangas e se estabeleceram, mui dignos rufiões. O turismo sexual ia bem, logo atraindo franceses e holandeses.

                 Esta diversificação da clientela meio que complicara a vida mansa. Pois, pois, engenhosos gigolôs resolveriam. Correram a surripiar novas carnes, lá de Mamma África. Articulou-se, assim, por um bom tempo, a questão: davam-lhes a cana a chupar, enquanto, concomitante, assoviava a chibata.

                 Eis que, nas tardes, não tendo com o que se ocupar, a nada bela Isabel deixara se rasgar por um mulato. Relações irrompidas, nasceria o samba. Daí foi um pulo pro Deodoro rebatizar o prostíbulo. A inglesada já viria contrabandear seu uísque e até uns austríacos meteriam ferro na estrada.

                 Casa de tolerância que se preze há que pagar propina. Quem desafiaria velhos xerifes do oeste, se é assim que se mantém a ordem? O progresso ficou por conta de um cafetão, que não gostava de praia; resolvera iluminar o altiplano.

                 Mas a luminescência tomou cores. "Nada de luz vermelha!" - bradaram fardados ciúmes. Gramofones e eletrolas ficariam proibidos de executar o róqu'enróu. Período monótono, em que o randevu limitou-se a rolar em colchões suíços.

                 De repente, a calmaria se alvoroçou com um tropel mirando abertura, sem, entretanto, descuidar da reta guarda. O cabaré foi ganhando segurança, providenciais saídas aos fundos. De fogo, extintores da língua, tipo ABC.

                 Dilma-me uma coisa, sem retumbar: é ou não esplêndido esse dossel? Entre outras mil, mal ou mel, és tu, Bordel.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Bucetão, Substantivo Masculino

(e pra não dizerem que evoquei o ânus)

                 Não irei praticar a hipocrisia barata e negar que, em outros tempos, alimentei vaidades de escriba. A mediocridade da expressão se incumbiu de abortar o suposto direito. De que valeria mais uma puta sem alma na quadra? Mais um pedaço de carne, com dentes cariados e unhas encravadas, vendendo a contaminada flora vaginal? Ainda que ela frequentasse academias e luxuosas boates, não passaria de um buraco esporreado.

                 Ninguém quereria radiografar o infausto lustro ou diagnosticar neuroses gramaticais. É tão fácil abrir as pernas e gemer, estimular com frívolas artimanhas. Não queiram me execrar quando trago, a cabresto, os vícios da masculinidade, se é destas vísceras que extraio a vastidão feminina. Não, não me interpretem mal, não estou em busca da sedução. Isto seria recair na vulgaridade. Careço muito mais. Escalavrar a buceta e me sentir a vadia, a vagabunda, a quenga. Deus acolha aqueles que acaso me leiam homossexual, pois, dos celestiais, é o reino da inocência.

                 Livro? Evito foder em público quando posso me publicar entre sete paredes, me desanuviar no mato.

                 Puta que o pariu, parei por aqui, porque tem dois sabiás me apupando: I hate you! I hate you! I hate you! Vão se danar, seus poucamerdas! Fodam-se, nem nunca li Kant, vivo me contradizendo, ouço vozes e, aprovem ou não, hoje sugarei um útero. Até sangrar.

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N.A. - Bucetão e buceta: grafia autofacultativa.

sábado, 3 de outubro de 2009

Primeira Vez

                 A primeira vez nunca será a melhor. Poderá conter brutalidade, desconforto. Ou não. Mas prevalecerá a memória do inusitado, dos anseios confluindo. Talvez a naturalidade casual seja preferível à premeditação. Haverá alguma hesitação, em que o fluxo sanguíneo se incumba de dar vazão.

                 ...

                 Sentindo a pressão na virilha, deslizou os dedos pelo volume. Puxou, açodadamente, por cima da cintura e, em vias de consumar, esganiçou: "— Perdeu!"

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Créditos

                 Este ano teve El Niño, Inverno cedendo divórcio à Primavera, de forma litigiosa. Não culpo os meteoristas, há que se ganhar o pão. Até a menopausa amazônica deu um bafão. Maldita sogra! Então o Sul é a encruzilhada do demônio?

                 Ignorando a lama que reclamou seus cadáveres, a pitangueira malicia no sorriso. Senti o cio no bico das folhas. Logo, logo, vestirá seu estampadinho. Mas, não adianta, perco para o sabiá. É sempre dele o cabaço. Depois, já bem putinha, até sobrará.

                 Fumo até brochar. Antes, era pra caralho. Dizem que o caracu alevanta. Sei não... Num canto, o buquê das bromélias se ri da hipocrisia. Eu, com cara de cu, embromo, ajardinando créditos de carbono.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Barbas por Barbas...

                 É, o mundo tá mudado, carecendo. Dessa vez, os filosóficos fiapos faciais ficaram mais tempo de molho na sopa de letrinhas, até que me acudisse o brilho. Teria que me despojar, me entregar ao sacrifício. Se o pseudolúrgico, lá, é rampeiro, porque devo não sê-lo, agora e aqui? Pois assim foi, garfando o Ce, o A e o Ene, que ornei a borda do prato com primeira sílaba de poderoso verbo. Sucedeu-se o DIDATO, com a naturalidade singular de metápodes.

                 Antes que os vapores subissem por linhas tortas, condensei o programa de governo no verso da propaganda das máscaras, essas tais que lavam as mãos em álcool-gel.

                 Habitação
                 As favelas transformar-se-ão em gigantescos condomínios fechados. De luxo. Cada unidade domiciliar receberá verba do PAC para satisfazer os devidos ajustes. Se a grana não vier? Simples: pac, pac, pac em quem não a envia.

                 Autossustentabilidade
                 Hortas comunitárias, com esforçado acompanhamento técnico. Privilegiar-se-á o cultivo de espécimes nobres, tais como a cannabis, a papoula e a coca. Pra que importar, se podemos ser autossuficientes? Nesta fórmula, buscar-se-á uma melhor distribuição da renda, desde as atividades primárias até o refino.

                 Saúde Pública
                 Cada grande condomínio terá seu nosocômio. Nada mais salutar do que a pureza das alturas. Podemos bem administrar o superfaturamento da obra, combinado ao subfaturamento do autor. Remédio há de não faltar. Nem preço a pagar, naquilo que chamar-se-á, legitimamente, drogaria popular.

                 Segurança e Justiça
                 As comunidades contarão com guaritas ocupadas por experimentados guerreiros, munidos de qualquer-coisa-antiaérea, uma vez que o que vem de baixo nem mesmo arranhe, e coletes à prova de bala, serigrafados com a griffe da facção, indicando quem dá o tom nessa balada. Será banido o exercício da advocacia, abominável prática da remessa de numerário aos rivais do Supremo. Os julgamentos serão sumários, sumérios e sumírios, com direito à incineração.

                 Educação E Cultura
                 Nos espaços contíguos às casas de saúde, erigir-se-ão complexos educacionais, visando à economia do transporte, em caso de punição a professores que ousem cercear a liberdade de expressão. O projeto será provido de quadras para a prática do futebol e do esqueitismo, salvaguardado o privilégio da utilização, quando assim entenderem por necessária, às agremiações carnavalescas. Ainda, no interesse da formação profissionalizante, área haverá destinada à linha-de-tiro para livre iniciação. O currículo escolar ficará desobrigado ao ensino da língua portuguesa, haja vista o alto índice de reprovação que se lhe tem reputado e do seu inócuo e inservível proveito prático.

                 Penso que dois buracos com tacada única possamos, assim, acertar: deslindar a intrincada equação do que venha a contemplar o mais amplo senso do bem-comum, sob a concepção de inequívoca verdade, já auspiciando momento histórico, em qual se registre o resgate da mais autêntica das lideranças. Partido, depois inventamos. Tem uma sigla que vive se insinuando à fugaz inspiração: PCC. Mas, de pronto, já temos lema: "Barbas por barbas, vote no Jarbas".

domingo, 16 de agosto de 2009

Pra Depois

Ah, não adianta
Teu corpo gramaticar
Num esforço alveolar
Se a verve já levanta
Se o sangue já estanca
Na cavidade cavernosa
Versos galgando a prosa
Da musa feita potranca

Vou deixar o lirismo
O açúcar com canela
A palavra que só fela
O arroz-deleite, se cismo
Que essa barra ainda aguenta
Acrobacias sem nexo
Que fiquem as dores do sexo
Quiçá, pra depois dos setenta

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Divina Invisibilidade dos Anjos

                 As lides cibernéticas escassearam e tenho andado acordando mais cedo, vendo o sol triscar o horizonte. Poesia do amanhecer, lenta agonia do fenecer.

                 Deparei-me com o sabiá estufando o peito alaranjado, de frente pro holofote, num galho caduco do segundo andar do cinamomo. Fitou-me, talvez desejando bicar o chimarrão, que nem bebo. Depois, veio outro. Pulou no pilar do muro e cruzou a fronteira, indo parar, acintosamente, um andar acima.

                 Cismei com aquela mobilidade, que independe da cotação do dólar ou da gripe suína para alcançar espaços cada vez mais longínquos. Que não faz check-in, nem aquele barulho chato de boiada se embretando pelos fingers. Que não fica catando o movimento das comissárias, tentando adivinhar a minhoquinha que será servida, enquanto turbulências sacodem triplos poleiros.

                 Pudera ser você, canoro penugento, e migrar sem compromisso. Voar solo, de dez em dez minutos, atravessar rios sem usar pontes, beliscar pitangas e me saciar com gotas. Leve, econômico. Quase livre.

                 Os pássaros sumiram. Ao alcance dessa curta visão, restou um corpo acabrunhado. Que absurdo! Dá nem pra imaginar essa carcaça alada. Ridículo!

                 Estatelei-me na realidade. Compreendendo, de vez, a divina invisibilidade dos anjos, acendi um cigarro e fui procurar promoções na Internet.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Mantra

(que me perdoem os gimnofóbicos)

Teta, teta, teta
Tetragrama, teragrama
Terapeuta da chupeta

Eta, eta, eta
Passa a vara nesse lombo
Pau rangendo a carreta

Meta, meta, meta
Metamais, metanóis
Metamórfica punheta

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sala Limpa

                 Corpo banhado, a fibra do macacão descartável pinicava a epiderme. O percurso entre a ala residencial e a unidade de projetos não levaria mais do que dois minutos, a pé. Prefiro o baby-sitter, um carrinho elétrico que todos nós, aqui, no complexo, temos. Arrastam-se quase cinco minutos... Suficientes para inalar. Com a mão esquerda ao volante, a outra bem cambiaria a marcha cardíaca. A transparência da noite permeia-se de lúmens, transpassando o firmamento da alma.

                 De tão uniforme, a nata asfáltica amalgama-se aos elastômeros, deixando leve rastro audível, só um cricrilar oriundo das aletas do rotor. Estanco à vaga mais próxima do acesso principal e interrompo a corrente. Autômato, cruzarei o saguão. O vigia, ao perceber-me vulto, esgueira um olhar de canto, que logo subiria ao relógio, quedando, redirecionado, ao filme. Passo rente e lhe escapa um 'noite, doutor', qual retribuo, mínimo meneio.

                 Descalço-me e dispo o macacão, que vai para o incinerador. O corpo nu será recoberto, dessa vez, pelo avental, pela toca, pela máscara e pelos pares de pantufas e de luvas da embalagem esterilizada. Prossigo e alço a íris ao dispositivo de reconhecimento. Abre-se o primeiro estágio da porta tríplice; avanço. O comando fecha a primeira seção e vaporiza o composto que aniquilará bactérias, liberando a passagem para o próximo. Um passo e meio me colocam ao centro do círculo onde receberei uma descarga ionizante e a varredura gama. A leitura digital aprova o meu status. Adentro, enfim, a sala.

                 É preciso ordem. É preciso ânimo e convicção. É preciso máxima assepsia para sofisticar a eficiência da dejeção eletiva.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Do Filme da Vida

                 Não importa se você aconteceu em fotogramas de finos grãos de prata imersos no celulóide ou se os registros não mereceram nada mais do que invisíveis quadrículas digitais, quais não resistiriam a uma pretensa ampliação. Tenha em mente que, ganhando ou não o Oscar, de qualquer forma, não irá tocá-lo. Provavelmente, esta última sessão terá um público recorde, jamais alcançado, por exemplo, nos seus aniversários. É da vida. Amém.

                 Mas esforce-se para manter um sorriso congelado, para que aqueles do seu bem-querer se sintam confortados, e, sobremaneira, para que a banda podre fique bastante cismada. É do Além.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Prenúncio

                 Aquilo me angustiava, uma nesga da janela sequestrando atenções, sem relampejo. Além dos losangos do gradil, o retalho enquadrava o canto da velha casa. Diagonais cinzentas, opondo-se por cima das caiadas paredes. Nenhuma brisa balouçaria as folhas do limoeiro, naquela modorra. Mas o verde teimava esconder sombras. Sombras de lusco-fusco. Sombras da nostalgia daquilo que nunca acontecera. O ar pesava de paz. Que visita, antes de se debulhar.

                 Se quisesse fixar, talvez não supervisse o corpo franzino esgueirando-se por detrás das folhas. Nem, por debaixo delas, os pés desnudos, que amassaram a grama sem farfalhar. Sentia-me espreitado e desabava num silêncio de não desfazer. Deixei-me. Fluir, encontrar.

                 Imóvel, a timidez das pupilas contrastava com desejos castanhos na íris. Dos braços esguios pendiam desatitudes, e dessa inanição emanava a premência. Segredei as palmas na eletricidade das minhas e as polaridades se completaram nos lábios.

                 A torrente desceu. Pediu abrigo. Depois, só o repenicar da garoa.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Atração Fatal

                 O Nautile emite um bip. Depois, outro. Mais outro. Outros mais, num intervalo que decresce, até o sonar tornar-se estridulante. A angústia rumoreja ante o estupefaciente: dessa vez, o Legacy não escapara ileso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Churrasco


Maio, cheiro da graxa desmanchando ao braseiro imiscuía flor de eucalipto. Fora apeando o baio que já avistaria o russo, lenço maragato e bombachas, botas cano-alto, pretas e lustro. Em pé, à frente dos outros, o sol lhe crestava a fronte e sombra competia com a de figueira. Viu quando fechou um dos olhos, apurando mira no outro. Cariótipo soviético, Dostô era sisudo, mas inspirava confiança.

Laçou moirão com a rédea, bateu pó do chiripá, se recompôs da troteada. Foi se achegando, passo descansado, sem-cerimônia.

Buenas!, chê

Dobro pozhalovat'! – chapéu bandeado, cuia na mão, o russo lhe daria meio abraço.

Esborrachada num banquinho, a voz de Johann saudou:

– Te aprochega, fifende!

Goethe içou a obesidade, que preferia bombacha e alpercatas. Franco sorriso branco, despontando algum dente dourado, estendeu mão. No contínuo, apôs quebra-costelas. Seguiu praxe, um a um firmando mão, batendo paletas. Aboletou-se num cepo e recebeu, vez de visita, honra da servida. Porongo amoldado, reavivou roda.

Johann reacenderia: "– Chegaste em boa hora. O coroné ia mesmo se gabando dum sucedido." "Causo cabeludo!" – arrematou Llosa. As atenções foram para Graciliano. Pigarreou, deu pito ao palheiro e se aprumou: "– Entonces, como eu ia dizendo – e minha santa mãezinha do céu testemunhe verdade – tive um entrevero dos brabo. Lá pras bandas do Oiapoque..." Desfiou arenga qual calango matuto que ponha jacaninã em pé e ainda lhe atente rabo-de-arraia sem sofrer bote.

O mate prosseguia mão em mão. Antes da erva se dar por lavada, um naco, que já desossava, rompeu por aperitivo. No seu canto, chiru Llosa há tempos desembainhara o três-listras. Guapo, rangia fundo à charla, chairando enquanto acoitava vez. Deu-se o primeiro a provar da minga, firmando osso quente na calejada, cravando dentes. A lâmina se incumbiria de porção, descendo rente ao bigode.

Fez-se agrado ao mulherio, lascas escolhidas. Johann chamou Clarice a lhes alçar prato. A patroa já fora noiva de um certo Whitman. Cismara com o americano a tratando por Cléris. Não era ela. Ou quando, açucaradamente, lhe desferia um honey, que mais soava a pônei. Noite qualquer, sonhara com ninhada de centauros lourinhos. Dia seguinte, desfez.

Da cozinha, as solteiras espiavam. As casadas comandavam, advertindo cebolas e limões, salada, suco e temperos. Alvoroço de chitas encobrindo brasas. Assanhando-se. Assando-se. Churrasco, que nada. Venha logo esse gaiteiro, traga bailanta!

– E esse moço que chegou há pouco, tia Clá?

Te apiana!, Flor

Não fosse malagueta a pimenta, que se ardesse na prudência. E adianta?

– Mas ouvi dizer que faz verso, que declama...

– Só um almofadinha da cidade, metido a trovar nas canchas de osso.

– Tem nome ele, não?

Clarice bem sabia que é besteira aguar. Que água só faz espalhar. Que jogá-la às chamas só levantaria cinzas.

Lhe chamam Pessoa. Um tal de Nando.

Clarice há muito sabia...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Planador

Respiro nos teus ventos
Alço-te em sobrevoo

Pico e cabro
Devorando coxilhas
Em asas sem propulsor

domingo, 3 de maio de 2009

As Coisas Mais Simples

                 O que me dói é não ter enviado um buquê. É não ter feito aquele passeio mais besta pela praia, só pra curtir um pôr-do-sol. Ou não tomar um sorvete e lamber carinhosamente o teu queixo, pra aparar um filete que se deixou escapar dos lábios.

                 O que me dói é não ter corrido pra te levar um guarda-chuva na saída da escola e ficar com a maior cara-de-tacho porque o sol trapaceou e resolveu reaparecer. É não ter assistido àquele primeiro filme que provocou uma tremura na alma e ficar taquicardíaco toda vez que toca aquela música. Ou não ter escrito o 'eu te amo' num cartão do dia dos namorados.

                 O que me dói é não ter subido ao terraço daquele prédio mais alto e olhar pras luzes e pras estrelas, como se fôssemos o topo do mundo e que o universo é que girava em torno de nós. É não ter sofrido os minutos da espera por um encontro e perceber que os segundos da ausência são um imenso tempo perdido. Ou não ter rido dos tênis sujos com o orvalho e o pó da terra e dos jeans impregnados de pega-pegas, depois de um andar de mãos-dadas pelo campo.

                 O que me dói é não ter me sentido o grande cavaleiro que enfrentou o dragão da farmácia e trouxe pra sua heroína um mero pacote de absorventes. É não ter entrado duas vezes na mesma fila pra ganhar mais uma provinha de sei-lá-o-quê e retribuir com um sorriso o ar condescendente da demonstradora. Ou não ter se fingido de indiferente pelas unhas pintadas num tom diferente e tentar manter a farsa diante da cara azeda de decepção, só pra poder imaginar a cena de uma bolsa sendo aberta, onde um misterioso bilhetinho confessa ter adorado a cor: "— Cachorro!"

                 O que me dói não é não ter a fúria das bocas se engolindo de paixão. Não é a saudade dos corpos se esfregando alucinadamente. Nem a falta do abraço mais confortante depois do êxtase. O que me dói foi não ter vivido isso: as coisas mais simples.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Abril, Meu Abril Brasileiro

                 Os sociólogos afirmam que as Eras Históricas encurtam numa progressão geométrica. Estendendo este raciocínio aos fatos relevantes ocorridos em determinadas épocas, incorro na presunção de apontar que o Abril brasileiro tem assumido o estigma de nos abobalhar. Sem muito esforço, revejo que em 1500 fomos subjugados a um reino transoceânico, em 1792 martirizaram um doidivanas, em 1960 inaugurariam uma Capital, onde já os tijolos iniciais possuíam o vício de aerotransportar-se às custas do erário, e, em 1964, no after day, sucumbiríamos sob a botina. Para sacramentar, deram ao descalço índio o 19. Ironicamente, três dias antes da pascal descoberta.

                 O 2009 não passaria incólume. Numa façanha televisiva, nós, meros espectadores, assistimos ao inusitado. Eis que a excelsa corte da magistratura, qual deveria ser o baluarte da dignidade e da justiça, não passa de uma fanfarronada, de uma grotesca imitação de programas de ratinhos, onde gatos e gatunos se travestem com a toga. Um descalabro espetacular diante das câmeras, com atores cometendo toda a sorte de bizarrices injuriosas, sem, contudo, tropeçar no que tange à calúnia. Estaríamos vislumbrando a ponta de um iceberg? Eu não ousaria macular a honra da água, em seu estado mais primitivo e puro. Temos aí a ponta, sim, mas de um cagalhão, e que pouco destoa do lodo que lhe arremete à tona.

                 Tanto Mendes, quanto Barbosa, são ofídios do mesmo ninho: ambos foram Procuradores da República. O primeiro é cria do FHC. O outro, do Lula. Indicações. Vejo, perplexo, magistrados de ilibada conduta pronunciarem-se: não há nada que se possa fazer. O colégio daqueles superiores juízes não possui, sequer, poder censório. Caberia, no entanto, ao cidadão comum, a iniciativa de propor ação junto ao Ministério Público, fulcrada em diplomas que tratem da falta de decoro ou, com mais rigor técnico, da improbidade administrativa. Mas quem seriam os julgadores, caso a petição fosse acatada? A resposta é uma piada, refinado humor negro: o Senado. Este é o preço da democracia.

                 Enquanto subsisto aos malfadados desígnios dos presidentes por mim não escolhidos e porquanto este dito estado democrático ainda me garanta a liberdade de expressão, me avoco, então, o direito de assim interpretar a sigla: Súcia Temerária e Funesta.

                 Ah, e a Vossa Excelência que acaso ledes e me julgais por estas supremas linhas, vos direi, com toda a liturgia e pompa: ide tomar em vosso cu.

                 E me respeite!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Xico



                 Domingo morreu Xico Stockinger, oitenta e nove, escultor. Austríaco, naturalizado brasileiro, preferiu os Pampas. Quem conhece? Ouvi alguém dizer 'eu'? Ah, você é porto-alegrense, não é? Ou, no mínimo, gaúcho.

                 Xico possuía a genialidade do essencial. Fundia seus próprios bronzes num cadinho de estimação. Gostava de explanar o processo, invariavelmente com um 'não tem mistério'. Mimado pela burguesia, vivia em casarão da Zona Sul, vizinho das vaidades quais não cultivava. Ao contrário, elas é que vinham paparicá-lo — talvez um generoso desconto. Eis a diferença: burguesia pechincha, aristocracia concede. Não é incomum encontrar um Stockinger, um Prado, na antessala de patuscos advogados.

                 O tosco ateliê constituía verdadeira afronta à distinção internacional e, na espontaneidade dos simples — mas raros — diria:
"— Vi, numa revista, uma reportagem sobre a baixa estatura de um povo, causada pela fome. Aí fiz esse gabirus de um metro e trinta, tamanho natural. O artista tem que mostrar essas coisas, isso que acontece por aí e ninguém faz nada".

                 A paisagem da urbe muda. A todo instante, a ganância dos construtores quer, ávida, impor. Agora é um 'Pontal do Estaleiro', grandes prédios, shopping centers e unidades habitacionais de luxo. Que façam. Há de faltar Stockingers para decorá-las.

                 Não o conheci, pessoalmente. Por certo não lhe acrescentaria nada e isso me deixa a consciência tranquila. Mas sentirei a falta. Não da obra ou do autor. É a inquietude de saber que, lá, num galpãozinho, entre as treze e as dezoito horas — vinte, no verão — morre, aos poucos, mais um pouco, Porto Alegre.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Canção a Olavo Bilau

Caralhinho não se atreva
A querer meter na bunda
Pretensão de tão longeva
Fica além do que aprofunda

A boceta não tem dente
Mas castiga na medida
Não aperta o pau da gente
Nem carece de cuspida

Se a donzela é recatada
Das que tomam limonada
É melhor ficar esperto

Segurou merda travada
Pra cagar de madrugada
Se borrar vai quase certo

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Bobo

Sou tão bobo
Que até boboreio
O fel por bom-bocado

Sou tão bobo
Que me boboro
Com teu riso mais guisado

Em estepes rarefeitas
Ufano-me tal lobo:
Pensa que não sou bobo?

Por que o primeiro?
Por que o de abril?
Culpa do cara da bombril?

Até aquele fim de março
Se fui feliz algum dia
Eu era bobo e nem sabia

quarta-feira, 25 de março de 2009

Variantes


Prefiro
Ao pôr-do-sol, a estrela vespertina
À Disneyworld, a Chapada Diamantina
À suada Copacabana, uma London com neblina
Ao loft do condomínio, um castelo na colina
Ao trinado na gaiola, o piado da rapina
Ao legítimo scotch, um vinho de cantina
Às glórias de guerreiro, os pecados da esquina
À bunda da Aguillera, Kelch der Liebe na surdina
À super-fashion-top-model, tu de saia e botina
Ao Mel da Lisboa, dos teus lábios a morfina

Sou gótico?

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Prefiro
À romântica Veneza, a frieza cisalpina
Ao toque artesanal, tudo à pilha alcalina
Ao desalinho do acaso, a ordeira disciplina
Ao frutífero frescor, a ampola cristalina
À nacarada pérola, o rutilo da platina
À liberdade da prosa, da métrica a rotina
À simpleza natural, maquiagem e purpurina
Ao onírico retrato, teu sarcasmo na retina
Ao platônico amor, tuas ancas à Messalina
À preliminar carícia, te comer com vaselina

Sou robótico?

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Prefiro
Ao precioso lácteo, me encharcar de cafeína
A uma bala na cabeça, morte lenta, nicotina
Ao sono do justo, conectar-me na matina
Ao discreto traficar, tudo exposto na vitrina
Ao lento par de tênis, a veloz gasolina
Ao soberbo nutriente, bolacha com margarina
Ao latino insinuar, minha porção feminina
A melão de silicone, sinuosidade pequenina
A aceitar tua grafia, me entorpecer com Elaína
À possibilidade do impossível, tentar
— não dá nada, nem combina

Ah, sou caótico...

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Encarnador



                 Especializei-me em seduzir freiras. Não são os corpos que contam, mas a ilha proibida. Apresento-me à madre superiora com as superiores recomendações de outra madre: "Trata-se de profissional sério e competente”. De resto, mulher é mulher. Gosta de galanteio, segredo e poesia. Vasculho a vaidade e o pecado se apresenta. Pecado é a palavra mais erótica que conheço. Quando no diminutivo, causa furor uterino.

                 As celas são limpas e recendem à pureza. "Com licença, irmã. Posso examinar o toalete?” — adentro aliciando, serviço à francesa. Se ficar à porta, observando, é caminho. Conduzo as preliminares exigidas por aquela intimidade. Calmo, preciso, sem denotar força.

                 Faço valer o verbo. Sutis metáforas. Das curvas de um vaso. Da rigidez de um cano. Do intercurso hidrodinâmico. Sano, saro, limpo e atiço. Até tornar-me digno de um copo d'água. Que recebo com premeditado toque. Escuso-me em versificados goles. Sorvo e me deixo sorver.

                 Serei reconvocado. Serviço mal feito? Nada. Inadvertido, o relógio se deixara ficar. De pulso perfumado. De horas de imaginação. Mas é homem que adentrará.

                 A melhor parte são os arrependimentos. Beijamo-nos e abraçamo-nos e choramos de desesperos de culpa. Fazemos pactos de mútua punição. Rezamos penitências. Nus, no catre, ajoelhados, lado a lado. Meu sexo parece, também, querer rezar. Uma segunda bem dada e toda a ladainha de novo.

                 Então me afasto. Saudade que se incumba e haverá tarefa.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Se Todos os Homens Fossem Padres



Não confesso nenhuma fé. Abdico de convicções, mas há condutas. Quem há de nunca se deixar seduzir por eclesiásticas arquiteturas? Pela perfeita sebe de um monastério? Por rotinas de paz? Acrescente-se gosto elaborado. A harmonia habita, a despeito das artes em profusão. O tempo, categoricamente, equaciona-se e surte.

Abandonemos a obra e construamos olhar ao autor. Íntegro, disciplinado, culto, afável, ponderado e convicto. Escalas que não pontuam quesitos de uma noite só. Edificou sólida multinacional que desconhece crise. Modo contrário, per seculum seculorum, dela subsistirá. Consolida patrimônio físico e intelectual por conta do invisível serviço. Investe frações temporais em outros. Sobremundo que pactua com o poder, apartando-se de leigas catástrofes.

Padres não matam padres. Não roubam. Não traficam. Têm estabilidade, plano de carreira. Não divorciam-se, não abortam. Não sofrem paternidade. Nem legam herança. Filhos, que sejam dos outros. Mulheres, amém.

terça-feira, 3 de março de 2009

Criptografia

                 Ando meio repetitivo. O vocabulário não comparece, a gramática empalidece, nem há curvas de sobe-desce. Tenho visto meu esqueleto expressar uma poética que me acentua, a cada dia, mais crônico. A espiral dos sentidos tornou-se tão infinitamente excêntrica que se deixou escapar ao eixo.

                 Então me masturbo na filosofia. Não essa que faz escola, que idolatra ou que imita, que define, que limita. Também não aquela outra, absurda, que diz aprender com o filho, mas nada ensina ao pai.

                 O segredo maior não se oculta; guardar é sucumbir à descoberta. Difícil, mesmo, é não ser. Nem niilista.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Lições

                 Os olhos do pupilo estavam grávidos. Sentiu-se cruel. Inflexionou fleuma, impôs rito. O menor. A praxe. Visível contrariedade atacando consciência, mesmo que convicção absolvesse.

                 Finalmente olhar parindo ânimo, ícones reflexos. Povoara tela, competia ministrar. Texto branco, ditou frase qualquer. Logo perceberia teclado trôpego. Lição primeira.

                 Ensinou gramáticas e histórias. Aritméticas e ingleses. Tudo, menos o que aquela hora que não pagava dois maços. A caminho do bar, tomou decisões. Passaria fumar outra marca. Lição, última.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Exorcismo

                 Na última, enfiou fundo. Mas não foi um fundo qualquer. Sabe, quando se puxa o freio de mão numa lomba? Isso! Mas ao contrário.

                 Fechou as calças, embretou as fraldas da camisa. Realinhando o nó da gravata com uma das mãos, na outra abençoou:

                 — 'Tás livre do demônio, irmãzinha...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Procura-se

                 Por uma cidade em que bares escaldavam copos-martelo pro cafezinho — era fria. Por uma metrópole onde bairros corriam admirados ao palácio — era feudo. Por um porto cuja praia sorria pra rua — e nem era. Por uma pasárgada que recebeu alucinado Neroy poetando luzes nos muros. Médico fora, um dia.

                 Onde andarás, Porto Alegre?


N.A. — Neroy era um morador de rua demente que escrevia poemas a carvão nos tapumes de alguma construção e os assinava assim. Versavam sempre sobre o mesmo tema: faróis de automóveis. Não era agressivo e, quem prestasse atenção, veria por entre o descuido da sua aparência uma fisionomia aristocrática. Via-se, pela escrita, possuir cultura. Personagem da lenda urbana, conta uma versão tratar-se de um médico que enlouquecera após a morte da esposa. Dedico-lhe estas parcas linhas como forma de agradecimento pelas lições que, alheio, mo ensinou: do amor extremado, da sensibilidade acima da razão e da poesia que nem aos loucos abandona.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sobre Ritmo e Sonoridade

(e para não dizer que não falei de flores)

                Era uma vez uma banda. Quem assistisse aos desfiles, se admiraria com pompa e garbo do uniforme. Da harmonia e cadência encerrados na profusão dos dobrados. Jamais suspeitariam, entretanto, que rudimentares noções de ritmo resumir-se-iam a didáticos e nada ortodoxos versos:

                 caralhinho, caralhinho, bunda
                 caralhinho, caralhinho, bunda

                 a boceta não tem dente
                 mas aperta o pau da gente

                 caralhinho, caralhinho, bunda
                 caralhinho, caralhinho, bunda

                 toma limonada
                 pra cagar de madrugada
                 toma limonada
                 pra cagar de madrugada

                 caralhinho, caralhinho, bunda

                Alvitrando escansioná-los, indômito futricar — e salvo maior autoridade presente ao recinto — chegaríamos a algo em torno disso:

                ca/ra/lhi/nho, /ca/ra/lhi/nho, /bunda = verso jâmbico (eneassílabo com acentos na terceira, sexta e nona sílabas)
                ca/ra/lhi/nho, /ca/ra/lhi/nho, /bunda = idem ao anterior

                a /bo/ce/ta /não /tem /dente = verso heptassílabo
                mas /a/per/ta o /pau /da /gente = idem ao anterior

                ca/ra/lhi/nho, /ca/ra/lhi/nho, /bunda = verso jâmbico
                ca/ra/lhi/nho, /ca/ra/lhi/nho, /bunda = idem ao anterior

                to/ma li/mo/nada = verso pentassílabo
                pra /ca/gar /de /ma/dru/gada = verso heptassílabo
                to/ma li/mo/nada = verso pentassílabo
                pra /ca/gar /de /ma/dru/gada = verso heptassílabo

                caralhinho, caralhinho, bunda = verso jâmbico

                A melodia executada pela banda visa florear a marcha. Em contrapartida, na cadência desta é que se dá o compasso da música. O que vai por aparente absurdo na disritmia encontrada acima, acomoda-se, harmoniosamente, no que abaixo segue. Por comodidade, ainda, vão abreviadas as notações da mesma, que irromperá ao pé esquerdo, locupletando-se no direito.

                Taróis e surdos:

                                 caralhím, caralhím
                                    esq.          dir.    = dois tempos (compasso binário)

                Bumbos:

                                 bum dá
                                esq.  dir. = idem

                                (repete a frase musical)

                Bombardinos:

                                 ábu cêta
                                 esq.  dir. = idem

                                 náuntem dênte
                                    esq.         dir.   = idem

                                 mása pérta
                                  esq.     dir.   = idem

                                 opáu dagênte
                                  esq.      dir.    = idem

                Repique dos taróis, surdos e bumbos:

                                 caralhím, caralhím
                                      esq.          dir.    = idem

                                 bum dá
                                esq.  dir. = idem

                                (repete a frase musical)

                Caixas, com esteiras de doze fios:

                                 tôma limonáda
                                   esq.      dir.      = idem

                                 pracagá dimadrugáda
                                     esq.             dir.         = idem

                                (repete a frase musical)

                Finalização, por taróis e bumbos:

                                 caralhím, caralhím
                                    esq.             dir.     = idem

                                 bum dá
                                esq.  dir. = idem

                Nos caralhinhos finais, o mor acenava a batuta, imediatamente firmando-a, por ambas as extremidades, paralelamente à fileira dos bumbos, e, na última sílaba da bunda, a recolhia até a linha da cintura, cessando, desta feita, por completo, o ruído dos instrumentos.

                Evidentemente que há de se perquirir o leitor o que o cu teria a haver com as calças. Nada. Música é música, poesia é estilo literário. Tais pretensos versos visavam, tão unicamente, reproduzir, de forma onomatopéica, o som dos instrumentos e a ocorrência nos compassos musicais.

                Se o ritmo musical foge à compreensão dita literária, pouco se importaria, com tais preceitos, a arte da harmonia sonora. Afinal, não é da poesia que se escrevem partituras. Ao contrário. O fenômeno musical, rico em colcheias, semicolcheias, fermatas, arpejos, alegros e pianíssimos, é que emprestará ou não, sonoridade a versos. Ouse empregá-la, por magistral, o poeta. Saiba extraí-la quem puder.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nasce um Imperador

                 O atravessador de propriedades me pôs num divã, projetando Seychelles e outras pasárgadas. Havia um arquipélago órfão de arretos comerciais. Bastava demonstrar uma certa comoção para com piratas. Politicamente interessante, pensei. Ao cabo de uma semana, sobrevoaria.

                 Recebidos em palácio, apressou-se majestoso e frugal repasto. O pulha-em-chefe observava negociações via eme-ésse-ene. Negativas, ultimatos, e meu alheamento lambuzado por um caqui. Seu polegar para baixo, meu dedo em riste. Tensão. Navios sucumbindo, apontei-lhe variedade achocolatada que bem se daria em tal reino. Nervosas, as matracas já não me perfurariam. Apontadas para o celestial, espocaram festivos augúrios.

                 Convocou ministro, oficializaram-me posseiro. Abri a valise, retirando três polpudas cuecas. Intrigado, hilarizou:

                 — Mas não é que és brasileiro?

                 Mandou mucamas contarem. Em risinhos, se incumbiram. Cada esvaziada, esbofeteavam-se pelo souvenir. Sexo implícito, crime explícito — eis as delícias de um conto.

                 A sonolência da volta não me conteve reler escritura. Inconformou-me aquele Ministério da I. e Comércio. Acorri ao corretor:

                 — Por que desta chancela abreviada?

                 — Problema é que eles não têm indústria. Copiaram, deu nisso.

                 Satisfeito, liguei para um maiâmico dealer, encomendando dúzias de embalagens nitrogenadas. Custavam menos que na fonte. De quebra, chegariam vermelhamente exultantes. Saborearia, assim, preliminares salvaguardas de estadista.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ghost, do Outro Lado da Escrita

                 Depois daquele artigo lá no Nuió, desandou, de vez, a maionese. Senti-me menorréico, o afluxo ao perfil do orchukrut disparando e helicópteros já urubuzariam meu muquifo. Seriam do Vatecano?

                 Urgia decidir, tratar-me. Expor síndromes e intenções a advogados e psicanalistas. A questão seria o quê com quem. Havia que definir. Ambos acabam faturando pelos dois lados. Por precaução, levaria uma parede, junto.

                 Aflorou-me, então, neurolinguística consciência: moralista está para moral, assim como jornalista está para jornal, como normalista para normal... para vaginal, vaginalista? De imediato ocorrem grotescas exceções: analista, articulista e paulista. Gosto da primeira, a segunda desprezo. Tornar-me-ia, finalmente, um santo. Quiçá, um coelho. Jarb Paul Iger, ou, simplesmente, JP. Nome sem origem. Sem classe. Sem gênero. Estaria, em mim, o terceiro segredo de Fátima.

                 Tudo arranjado, subornei o revisor e uma vírgula deu mote. Antes mesmo de rubricar o ato defenestrativo, o fórum, devidamente lubrificado, acoitaria bacanalistas petições. Os talagaços de sempre, acrescidos de assédio, mais danos outros. Três varas, de vez, num só buraco.

                 Aqui as coisas andam. Tão rápido que dá nem pra aproveitar a crise da Macy’s. O acordo forraria velhas cuecas com recentes cédulas cheirando a tequila.

                 Pergunto, e agora, JP?

                 Respondo. Fazer o que fazem caras bem sucedidas. Comprar uma ilha.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Diagnose

Precisão de oculista
Vejo certo no errado
Do outro lado da vista

Tomando pulso caótico
Arrisco, cardiologista
Bradicárdico prognóstico

Se foi outra a simbiose
Escapa um drama psicótico
Fluindo por overdose

Impaciente me acalma
Uma gota por osmose
Umedecendo a alma

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Hitler Terminal



                 Estive, estes dias, com Adolfo, lá no bunker. Ele não estava nada bem. A revista Óia, tão ciosa quanto propaganda de cerveja, bavariá, exibira um intrincado diagnóstico. Seria algo em torno de quatrocentos e oitenta e cinco desvios de personalidade, segundo o Siguimundo. Ah, não vou entrar no mérito, mas paranóia, não! Pelo que me consta, era o baixinho quem botava mania. Hey, Hit, taí um verbo que combina com a tua farda: botar! Percebi uma faísca de aprovação.

                 Jogamos escova. Por delicadeza e prudência, entreguei o sete belo. Diplomático, me inteirara da preferência dele por naipes claros. Bebemos e não fumei. Ele não aspira fumaça. Diz não cair nas falácias hollywoodianas. Não é salutar, confidencia.

                 Exatamente às cinco, a senhorita Braun nos apresenta a um chá digestivo. Senta num mochinho e, bem namoradinha, fica ajeitando e alisando a franja daquela cara macilenta. Teria sido dela a idéia do bigodinho? Sabe como as mulheres são, quando querem desviar o foco de seus fetiches...

                 Súbito, ouve-se uma rajada:

                 — Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt!

                 “Não é nada” — acalma, fazendo sinal para um SS, que logo daria uma pancada nas costas do soldadinho, pondo um hunf! àquela sequência de halts. Adicionou que o infeliz precisava ser remanejado. "Distúrbios de confinamento" — fez muxoxo.

                 — Hit, não te incomoda legar uma memória tão, por assim dizer, assombrosa? — arrisquei.

                 Descendo a mão de cartas lentamente sobre a mesa, por alguns segundos me fixou.

                 — Du bist Jude, nein?

                 — Você é judeu, não? — refez, percebendo a dificuldade.

                 Não respondi nem que sim, nem que não. As pupilas foram sumindo e me atravessaram. Surpreendeu-me, então, num tom ameno, quase balbuciante:

                 — O que está feito, está feito. Nunca fiz mal sequer a uma mosca. Nem alemão eu sou.

                 Alguns dias depois caía o Reich, e o New York Times publicaria a matéria, logo abaixo do destaque dado ao sumiço do corpo. Fiquei puto com a mexida perpetrada pelo editor-chefe. Engendrou uma linha jamais proferida: "— Não me culpem por idolatrias, nem me acusem pelos excessos, se são vocês que duvidam da Ressurreição!".

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Banho


                 Enquanto se despia, gemidos e sussurros ecoavam, impregnando. Abriu e a torrente desceu. Resvalando. Percorrendo. Lavava-se em volúpias, acariciando recônditos. Sutil piparote e a torneira reteve fluxo. Quereria aquela tepidez.

                 Ferveu-se nas espumas que avolumavam. Espalhou-se, concentrando: "— Caralho, porque não fazem sabonetes anatômicos?".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Leituras

                 Poderia dizer daqueles trejeitos esguios, farfalhando as páginas, roçando a brancura das fibras. Do vai e vem instigante, suscitando por detrás da delicada lingerie dos aros. Ou da malícia se projetando pelas fímbrias do short, toda vez que cruzava e descruzava. Dos mistérios desnudos, flagrados por alguma brisa, em que só brincos pendiam. Ou da maciez arfando em par, por debaixo do livro.

                 Mas fora no balanço da sandália, perigosamente escorregando, até se deixar cair, que lhe espocou uma última gota e transbordou-se.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Bonecas Violentadas

                 "Estupraram minha Barbie!" — berrou. O caso foi parar na polícia. Testemunhas ouvidas, perícia concluída, havia resquícios de sêmen na bendita. Começaram especulações. Até aquela apresentadora que montou na preta, e, depois, na grana, se manifestou: "— É mais um atentado contra loiras...". Somaram-se, ao coro, os quiquis de uma tal Quéli.

                 Sei que a coisa evoluiu e foi fazer ponto, com direito a programa, lá nos corredores da emissora. Ibope sempre dá muvuca. Vai que vai, surgiu suspeito. Delegado experto logo veria neguinho atrás de glória. As opiniões se dividiam. Uns querendo vingança, a turma do deixa disso só história. Que entraria, enfim, para a História — e fim.

                 Questão era que a vítima nem sabia falar. Já nascera traumatizada — escorchavam — a coitadinha.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Rali Gaza-Rocinha

                 Um foguete é lançado. O pneu traseiro do Caveirão se incendeia, deixando um rastro de lava ao chão batido, até consumir-se em arames. O rodado fica vazio. Tatuado com triângulos de David, o mostro sai, claudicando. A histeria toma conta. Mães empapam de lágrimas os alcorões da Igreja Universal, vociferando salmos. "É só uma contra-ofensiva" — resmunga o oficial com dois pentagramas cintilantes nas ombreiras.

                 As estatísticas da fidelidade digital filtram keffiehs do mal. Nas covas rasas, o descarte da inocência.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sapatos

Rasputin em palácio, Booth ao teatro, piloto-de-onze-de-setembro, adentrou a loja. Mirou a balconista e disparou à queima-roupa: “– Me dê aqueles!”, apontando preto e reluzente par.

Ungiu-se por rei ao calçá-los e, coroa servida, reivindicou, com delicadeza, mote em banalidade qualquer – a alma a lhe exigir digno estojo – caixa intacta.

Saiu com o embrulho, imerso. Alegria permeada por estoicos relances. Ora a renúncia a partes da já minguada ração, ora as quentes noites dormidas sem ventilador. Dos instantes em que a vitrine fora ansiado espetáculo, dos dias que atravessara rua para não encará-la.

...

Chapinhou delírios nas poças armadilhadas por camuflante capim. Resvalou sonhos no barro endemoninhado, agarrando-se às solas, vomitando-se por cima do cromo. Derreou-se, por fim, de todas as ilusões, infectas e escoriadas por pés de um ônibus lotado.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Febre

                 Não saberia por quanto tempo. Se entrara sozinha ou viera acompanhada — havia um fio de claridade riscando a soleira do banheiro. Não ouvira batidas à porta, nem que o chamassem. O corpo ardia, pele porejando. Por que estaria ali? Merda de farmácia! Estaria fechada. Protegiam-se. Ele que se arrebentasse. Outra agulhada nas costas o fez contrair os músculos da face. A febre basculava continuamente o olhar. Alternavam-se, definição, turvações. Tentou fixá-la, mas a intermitência quase nada permitia. Reto vestido azulado. Tão desbotado quanto o pouco que não cobria.

                 Pensara acordar vizinho, mas fraquejaria. A impassibilidade naquele rosto lhe relanceou invulgar familiaridade. Já encharcado, queimava. O calendário, a santa ceia, a frigideira, um maço de macelas, tudo o que pendia das paredes se punha em ciranda. Buscando uma freqüência mais baixa, somente luzências ainda atravessariam os canais óticos. Do bule. Da velha panela. Da delicada pulseira dourada, no pulso da menina.

                 ...

                 Marília o soube pelo jornal. A folga as quartas permitia ao mundo adentrar a pequenez do cômodo. Empilhando-se, fasciculado. Indômitos, os olhos recortavam. Ávidos pela crônica do existir, recaíam nas páginas da violência. Um nome arregalaria, palpitaria, lhe causando nó: "Encontrado Corpo de Homem Dentro de Casa. A polícia, alertada por vizinhos que sentiram forte cheiro e desconfiaram das luzes acesas por mais de três dias, compareceu à casa de Sebastião Alves, 51, na vila Nazareno. A porta da cozinha, escancarada, sem sinais de arrombamento, facilitou o acesso dos policiais. No piso, em decúbito dorsal, o cadáver ocultava profundo ferimento às costas.".

                 Lívida, mergulhou-se. Há quatorze anos separaram-se. Parira desgraça. Consumada em não diagnosticável doença. Fatal. Sentindo arrefecer o formigamento da fronte, continuaria: "Segundo o delegado Cléber, não há suspeitos. A Homicídios intensificará as investigações com base em pistas iniciais. A vítima, informou a perícia, segurava uma pulseira de ouro, daquelas com a plaqueta que grava o batismo de alguma criança.".

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

És Portuguesa, com Certeza

Ave santo lexicógrafo
Gramático minimalista
Lusófonos tarados

Eis hiper-retro tacógrafo
Na autoestrada simplista
Dos buracos mal tapados

Temendo o trema às vistas
Liquefacientes linguistas
Caçam antirreformistas

Viva! ao editor que extorque
Com anticultura patética
Imprimindo dicionários

Resguarde-se à nova iorque
Consoante a neoestética
Tais virginais relicários

Nas escrituras da hora
Deem-se todos em paranoia
Ilustre-se o chão co'essa cera

Mais um pouco não demora
Da serpente fazerem jiboia
A maçã descendo à pera

Averigúe, pacata plateia
Cordial cordata à alcateia
Não veem brilhante a ideia?

Se acentua-se mal o leitor
Na feiura causando enjoo
De assentos que não se leem

Entra polo cu d'escritor
Um caralho em raso voo
Ai daqueles que não creem