quarta-feira, 18 de março de 2009

O Encarnador



                 Especializei-me em seduzir freiras. Não são os corpos que contam, mas a ilha proibida. Apresento-me à madre superiora com as superiores recomendações de outra madre: "Trata-se de profissional sério e competente”. De resto, mulher é mulher. Gosta de galanteio, segredo e poesia. Vasculho a vaidade e o pecado se apresenta. Pecado é a palavra mais erótica que conheço. Quando no diminutivo, causa furor uterino.

                 As celas são limpas e recendem à pureza. "Com licença, irmã. Posso examinar o toalete?” — adentro aliciando, serviço à francesa. Se ficar à porta, observando, é caminho. Conduzo as preliminares exigidas por aquela intimidade. Calmo, preciso, sem denotar força.

                 Faço valer o verbo. Sutis metáforas. Das curvas de um vaso. Da rigidez de um cano. Do intercurso hidrodinâmico. Sano, saro, limpo e atiço. Até tornar-me digno de um copo d'água. Que recebo com premeditado toque. Escuso-me em versificados goles. Sorvo e me deixo sorver.

                 Serei reconvocado. Serviço mal feito? Nada. Inadvertido, o relógio se deixara ficar. De pulso perfumado. De horas de imaginação. Mas é homem que adentrará.

                 A melhor parte são os arrependimentos. Beijamo-nos e abraçamo-nos e choramos de desesperos de culpa. Fazemos pactos de mútua punição. Rezamos penitências. Nus, no catre, ajoelhados, lado a lado. Meu sexo parece, também, querer rezar. Uma segunda bem dada e toda a ladainha de novo.

                 Então me afasto. Saudade que se incumba e haverá tarefa.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Se Todos os Homens Fossem Padres



Não confesso nenhuma fé. Abdico de convicções, mas há condutas. Quem há de nunca se deixar seduzir por eclesiásticas arquiteturas? Pela perfeita sebe de um monastério? Por rotinas de paz? Acrescente-se gosto elaborado. A harmonia habita, a despeito das artes em profusão. O tempo, categoricamente, equaciona-se e surte.

Abandonemos a obra e construamos olhar ao autor. Íntegro, disciplinado, culto, afável, ponderado e convicto. Escalas que não pontuam quesitos de uma noite só. Edificou sólida multinacional que desconhece crise. Modo contrário, per seculum seculorum, dela subsistirá. Consolida patrimônio físico e intelectual por conta do invisível serviço. Investe frações temporais em outros. Sobremundo que pactua com o poder, apartando-se de leigas catástrofes.

Padres não matam padres. Não roubam. Não traficam. Têm estabilidade, plano de carreira. Não divorciam-se, não abortam. Não sofrem paternidade. Nem legam herança. Filhos, que sejam dos outros. Mulheres, amém.

terça-feira, 3 de março de 2009

Criptografia

                 Ando meio repetitivo. O vocabulário não comparece, a gramática empalidece, nem há curvas de sobe-desce. Tenho visto meu esqueleto expressar uma poética que me acentua, a cada dia, mais crônico. A espiral dos sentidos tornou-se tão infinitamente excêntrica que se deixou escapar ao eixo.

                 Então me masturbo na filosofia. Não essa que faz escola, que idolatra ou que imita, que define, que limita. Também não aquela outra, absurda, que diz aprender com o filho, mas nada ensina ao pai.

                 O segredo maior não se oculta; guardar é sucumbir à descoberta. Difícil, mesmo, é não ser. Nem niilista.