sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Moeda Forte



Há pouco, um japa criou a Bitcoin – moeda virtual que circula na Internet. Para se ter ideia da sua cotação, por trezentas bitcoins é possível comprar um Porsche.

Legal! – pensei. Assomado pelo cetegístico bairrismo, sentimento único que só os nativos deste apêndice geográfico se permitem possuir, logo imaginei o Tchê.

É estarrecedor que nós, gaudérios aguerridos, especialistas em transviar a História ao ponto de elevar o bandoleirismo à saga, não tenhamos pensado nisso antes.

Tudo no Sul é forte. O homem é forte, o cavalo é forte, a bebida é forte. Até o tranco da morena Rosa é forte. Portanto, o Tchê já nasceria, circunstancialmente, forte.

Ao forte, logo me advém o durável. Em qual substrato se estampariam as nossas cédulas? O papel-moeda dos De La Rue é caro e feito por gringos – execrável. A celulose produzida por aqui está comprometida. Ora se presta a coador de café (e café é coisa de paulista), ora a papel higiênico (algum até perfumado...). Mas, que tal o couro? Perfeito! O couro é produto legítimo, onusto de tradição, durável, flexível e pode ser marcado a ferro. Nada mais justo do que guaiacas e bombachas pilchadas de couro. De quebra, se sequestraria um significado e, quando o vivente perdesse até a mulher no jogo do osso, se poderia dizer: "Não dá mais no couro!".

Há, ainda, que se definir as frações pecuniárias. Os ditos centésimos, cunhados em metal varonil – porque o dos outros é que é vil. O ouro já foi todo contrabandeado para o Uruguai, a prata homenagearia os nossos desafetos castelhanos e o cobre azinhavra os chilenos. Há que se meter o ferro, mesmo! E a cunhagem? A efígie dos notáveis albergaria polêmicas quanto a valorações de chimanguistas e maragatícios. Penso numa solução pacífica: ferraduras. Sim, destas que protegem os cascos das cavalgaduras. O número de furos por onde passam os cravos de fixação determinaria o valor. Moderno, prático e eficiente. Didático, diria, até. Servir-se-iam delas os mestres, tomando-as como ábacos no desvelar da iniciação aritmética. Contemplados estariam, também, aqueles de curta ou nenhuma visão e que se aprimoram no apalpo. Magnífico! Ouso repetir: perfeito! É bem verdade que ainda falta batizar tais ferrinhos. No terreno fértil do meu pensamento, enriquecido pelo fosfato e pelo nitrogênio, germina formosa planta, galhada por ramificações associativas. Na folha mais alta, mais tenra e mais viçosa, me ocorre a fotossíntese desta gênese: o designativo cascal. Sim, cascal, numa suposta alusão àquilo que se refere aos cascos. Eis a cunha e a alcunha!

Haveria algo de mais lídimo, dentre os valores gauchescos, do que a gadificação e o cavalarianismo do meio circulante?

Outro fator que urge criar moeda própria: há muito que transcende uma inquietação separatista, daquelas do tipo "os incomodados que se retirem". A República dos Pampas está por um fio de arame farpado a ser esticado na altura das barrigas verdes. Vai que acontece... Nada a preocupar. Rápido como um tiro de laço, uns poucos paus e costaneiras de eucalipto erigiriam a Casa da Moeda pampiana. Por uma ponta é matadouro. Na outra, é já nascedouro – berço do novo dinheiro.

Mas há que se ter consciência monetária. As grandes potências substituíram o lastro em ouro pela credibilidade. Aos incrédulos e pessimistas asseguro: é possível duvidar das garantias oferecidas por um fio de bigode?

Nos finalmentes, teríamos a questão da representação simbólica dessa moeda. Penso logo num pragmático T, sucedido por um cifrão. E antes que me assomem vírgulas homoafetivas ou xenofobias pontuais, dou de talho, ao melhor estilo democrático sulista: é dois pontos e fim! Ah, não me digam que não fica fofo um T$ 1:00 na telinha do aipode?

Mas nada de Porsches, Lamborghinis ou Camaros amarelos. Por aqui, bem equiparado, se venderia um belo touro reprodutor, daqueles disputados a três listras em remate bagual, por uns míseros quatro tchês e vinte cascais.

Eita moeda forte! E da boa...


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

As Minhas Musas



As minhas musas são brancas
Pálidas como páginas de um livro
Têm cabelos e pelos escuros
Pretos como a palavra impressa

As minhas musas não envelhecem
O tempo só as consagra
No âmbar de folhas guardadas

As minhas musas são cortesãs
Desarranjadas
Na realeza de uma estante

Mas basta um instante
Um perpassar de olhos por suas lombadas
Que a volúpia incontida
Na ereção do pensamento
Faz-se catarse de momento
E alguma há de ser relida

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A Máquina de Fazer Gelo



O pescador tirou o barco. E a rede. E o peixe.

O peixe vendeu. O peixe sobrou. O peixe perdeu.

O governo interveio. E veio. A máquina – fabulosa máquina de fazer gelo.

O pescador sorriu. Era imensa a máquina. Parecia-se com a caixa-forte do Tio Patinhas.

O pescador, maravilhado, viu a máquina despejar montanhas de lascas de gelo.

O pescador se conteve. Quereria mergulhar naquelas lascas, uma fortuna em moedas de gelo.

Mas o gelo era frio. Era molhado e escorregadio. Era mais duro que moedas, e afiado de cortar a alma.

O pescador partiu. Tirou o peixe, a rede, o barco.

As moedas derreteram. Sumiram pela fresta das areias.

O pescador vendeu.

Sobrou.

Perdeu.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Feito Moça

É tarde, e o leite irreversivelmente derramado. Talvez seja o tempo de condensar as doces amarguras numa prateada lata de lembranças.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Buraco Negro

Inseriram ogivas nucleares nos meus poros. Sinto eclodirem Hiroshimas e Nagasakis por toda a extensão do território corporal. A genética do pensamento sofre, a cada instante, mutações disformes, que são rechaçadas numa compreensível repulsa. Não sou mais humano. Nem desumano. Perdi a noção de humanidade.

A torrente ácida lava meus neurônios como se fossem grãos de açúcar refinado. O cianeto invade e se aloja nos alvéolos. Respiro com dificuldade; transpiro em abundância. A grama se parece com estalactites e perfura o meu couro cabeludo. O mar avança acima da linha do horizonte e espalha nuvens de espuma. Uma esquadrilha de moscas pousa nas crateras das minhas feridas.

Vejo homens pretos, de cabeças amarelas. Possuem corações amarelos, com estáticas válvulas pretas. Ensacam-me e me lacram. Tudo, agora, é uma silente escuridão.


sábado, 19 de janeiro de 2013

Injusta Causa

(um cordel agauchado)

Quem vem lá do Pinhal
Em direção à Cidreira
Pela Reta desigual
Na altura da madeireira
Mais três quadras avance
E dobre na Casa dos Monstros
Até que o Mar alcance
Ali é via de encontros
Do veranista e do morador
Da moça dourada e do ambulante
Do violeiro, do pescador
E do gaudério itinerante

Foi lá que se deu o fato
O terrível incidente
Alguém pagou o pato
Por denúncia improcedente
Quem não doma seu ato
Afeta o meio-ambiente

Veio polícia, autoridade
Trator e caminhão
Sem a menor piedade
Pelaram todo o chão
Dane-se a Comunidade
Que recupera tudo em vão

Arranca toco, paliçada
Bandeirola, demarcação
Feitos com Arte abençoada
Paciência e dedicação
Por um Homem que é exemplo
Na faina da Preservação
Das areias fez seu Templo
Manejando o Cordão
Sem cargo e sem salário
E sem gastar um tostão

É nessas horas que penso:
Pra quê Governo, minha gente?
Pois o valo corre intenso
Poluindo o Ambiente
Neste valor invertido
A Língua é que morde o dente
O Lobo travestido
É o principal poluente

Mas lá no Palácio das Plumas
Dos paetês e dos vidrilhos
Pouco se importam com as dunas
Com tuco-tucos ou sarilhos
Bastou um canetaço
Daquele importante agente
Que a Praia virou um bagaço
E o tal nem se fez presente

Seu Luiz, que não é Santo
Mas fez um pequeno milagre
Uma coisa eu garanto
Honra o Vinho, despreza vinagre
De Tenaz incansável
Faz História este vivente
E para registro inefável
Assino este verso imprudente