quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

Negligentemente

"A torrente desceu." Confesso que gosto desta frase, escrita há algum tempo. Ela me perfaz sintomático. Quando, enfim, os açoites do calor cessaram com a benfazeja enxurrada, neste sábado, ela desentranhou-se, com ares referenciais. Então percebi que já escrevera tudo o que a tacanha alma de mim quereria.

Estou contido e contenho. A mão fraqueja em sintonia com a corpórea organização.

Raramente manuscrevo. Face à iminente queda de energia, me antecipei. O pó acumulado nos cantos, o lençol amarfanhado e o relógio de parede, que jaz desprestigiado ao rodapé, são bandeiras e signos. Faltam exatos onze dias para rocar as minhas torres num enxadrismo de regras próprias. 2015 é vermelho. Vermelho sobre alvo fundo infinito. Estou apto para a quarta encarnação.

O braço pende e, na extremidade, a caneta se suspende. Negligentemente. Como é horrível e tedioso o som desta palavra. Se ainda o fosse em francês...

domingo, 14 de dezembro de 2014

Aquarela



A aldeia está pálida. A bananeira acena um desvalido verde-ouro. O chuchu adicionou mais pegadas à laje. Vinte e cinco tons de cinza recobrem monocromáticos leitos de barro. Um cachorro em P&B irrompe com o que sobrou da ferrugem dos elos. Os pigmentos do céu repousam no fundo da lata. A conspiração in-sol-vento não revolve nem solve.

É domingo. Faltou cor. Faltou gente.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pingo



Sunt lacrimae rerum,
et mentem mortalia tangunt
Virgílio, Eneida

Pingo
Que do espaço aflui e se lança
Gravitacional

Se espatifará
Bombardeará a formiga
Fará germinar

Esgueirar-se-á por goteiras
Formará córregos, rios
Em fugas ao mar

O mar
A eternidade
Ciclo e século

Olhai e refleti
Poetas do absinto e do abstrato
Se vos encantam céus
Ou passionalidades telúricas

O sangue, o sêmen
O sumo

O absurdo desiderato
O mais profundo
Werther em lágrimas

São teus espectros
Em alternâncias de estado
Sendo sempre
E tão somente
Pingo

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Adiós, Chespirito

Quando morre um palhaço, penso logo nas crianças. Inclusive naquela que fui e que me permito ainda cultivar. É uma tristeza indizível, uma sensação de perda que transcende à racionalidade. É como se nos roubassem mais um tanto da magia e do encantamento, tão já precários nesse confronto absurdo que chamamos de realidade.

Adeus, Roberto Gómez Bolaños. Obrigado por ter existido.