quinta-feira, 2 de julho de 2009

Prenúncio

                 Aquilo me angustiava, uma nesga da janela sequestrando atenções, sem relampejo. Além dos losangos do gradil, o retalho enquadrava o canto da velha casa. Diagonais cinzentas, opondo-se por cima das caiadas paredes. Nenhuma brisa balouçaria as folhas do limoeiro, naquela modorra. Mas o verde teimava esconder sombras. Sombras de lusco-fusco. Sombras da nostalgia daquilo que nunca acontecera. O ar pesava de paz. Que visita, antes de se debulhar.

                 Se quisesse fixar, talvez não supervisse o corpo franzino esgueirando-se por detrás das folhas. Nem, por debaixo delas, os pés desnudos, que amassaram a grama sem farfalhar. Sentia-me espreitado e desabava num silêncio de não desfazer. Deixei-me. Fluir, encontrar.

                 Imóvel, a timidez das pupilas contrastava com desejos castanhos na íris. Dos braços esguios pendiam desatitudes, e dessa inanição emanava a premência. Segredei as palmas na eletricidade das minhas e as polaridades se completaram nos lábios.

                 A torrente desceu. Pediu abrigo. Depois, só o repenicar da garoa.

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