segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Hitler Terminal



                 Estive, estes dias, com Adolfo, lá no bunker. Ele não estava nada bem. A revista Óia, tão ciosa quanto propaganda de cerveja, bavariá, exibira um intrincado diagnóstico. Seria algo em torno de quatrocentos e oitenta e cinco desvios de personalidade, segundo o Siguimundo. Ah, não vou entrar no mérito, mas paranóia, não! Pelo que me consta, era o baixinho quem botava mania. Hey, Hit, taí um verbo que combina com a tua farda: botar! Percebi uma faísca de aprovação.

                 Jogamos escova. Por delicadeza e prudência, entreguei o sete belo. Diplomático, me inteirara da preferência dele por naipes claros. Bebemos e não fumei. Ele não aspira fumaça. Diz não cair nas falácias hollywoodianas. Não é salutar, confidencia.

                 Exatamente às cinco, a senhorita Braun nos apresenta a um chá digestivo. Senta num mochinho e, bem namoradinha, fica ajeitando e alisando a franja daquela cara macilenta. Teria sido dela a idéia do bigodinho? Sabe como as mulheres são, quando querem desviar o foco de seus fetiches...

                 Súbito, ouve-se uma rajada:

                 — Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt! Halt!

                 “Não é nada” — acalma, fazendo sinal para um SS, que logo daria uma pancada nas costas do soldadinho, pondo um hunf! àquela sequência de halts. Adicionou que o infeliz precisava ser remanejado. "Distúrbios de confinamento" — fez muxoxo.

                 — Hit, não te incomoda legar uma memória tão, por assim dizer, assombrosa? — arrisquei.

                 Descendo a mão de cartas lentamente sobre a mesa, por alguns segundos me fixou.

                 — Du bist Jude, nein?

                 — Você é judeu, não? — refez, percebendo a dificuldade.

                 Não respondi nem que sim, nem que não. As pupilas foram sumindo e me atravessaram. Surpreendeu-me, então, num tom ameno, quase balbuciante:

                 — O que está feito, está feito. Nunca fiz mal sequer a uma mosca. Nem alemão eu sou.

                 Alguns dias depois caía o Reich, e o New York Times publicaria a matéria, logo abaixo do destaque dado ao sumiço do corpo. Fiquei puto com a mexida perpetrada pelo editor-chefe. Engendrou uma linha jamais proferida: "— Não me culpem por idolatrias, nem me acusem pelos excessos, se são vocês que duvidam da Ressurreição!".

Um comentário:

Deveras disse...

Criativíssima visãode um bate papo com o sacripanta.

ficanapaz