quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Febre

                 Não saberia por quanto tempo. Se entrara sozinha ou viera acompanhada — havia um fio de claridade riscando a soleira do banheiro. Não ouvira batidas à porta, nem que o chamassem. O corpo ardia, pele porejando. Por que estaria ali? Merda de farmácia! Estaria fechada. Protegiam-se. Ele que se arrebentasse. Outra agulhada nas costas o fez contrair os músculos da face. A febre basculava continuamente o olhar. Alternavam-se, definição, turvações. Tentou fixá-la, mas a intermitência quase nada permitia. Reto vestido azulado. Tão desbotado quanto o pouco que não cobria.

                 Pensara acordar vizinho, mas fraquejaria. A impassibilidade naquele rosto lhe relanceou invulgar familiaridade. Já encharcado, queimava. O calendário, a santa ceia, a frigideira, um maço de macelas, tudo o que pendia das paredes se punha em ciranda. Buscando uma freqüência mais baixa, somente luzências ainda atravessariam os canais óticos. Do bule. Da velha panela. Da delicada pulseira dourada, no pulso da menina.

                 ...

                 Marília o soube pelo jornal. A folga as quartas permitia ao mundo adentrar a pequenez do cômodo. Empilhando-se, fasciculado. Indômitos, os olhos recortavam. Ávidos pela crônica do existir, recaíam nas páginas da violência. Um nome arregalaria, palpitaria, lhe causando nó: "Encontrado Corpo de Homem Dentro de Casa. A polícia, alertada por vizinhos que sentiram forte cheiro e desconfiaram das luzes acesas por mais de três dias, compareceu à casa de Sebastião Alves, 51, na vila Nazareno. A porta da cozinha, escancarada, sem sinais de arrombamento, facilitou o acesso dos policiais. No piso, em decúbito dorsal, o cadáver ocultava profundo ferimento às costas.".

                 Lívida, mergulhou-se. Há quatorze anos separaram-se. Parira desgraça. Consumada em não diagnosticável doença. Fatal. Sentindo arrefecer o formigamento da fronte, continuaria: "Segundo o delegado Cléber, não há suspeitos. A Homicídios intensificará as investigações com base em pistas iniciais. A vítima, informou a perícia, segurava uma pulseira de ouro, daquelas com a plaqueta que grava o batismo de alguma criança.".

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