sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sapatos

Rasputin em palácio, Booth ao teatro, piloto-de-onze-de-setembro, adentrou a loja. Mirou a balconista e disparou à queima-roupa: “– Me dê aqueles!”, apontando preto e reluzente par.

Ungiu-se por rei ao calçá-los e, coroa servida, reivindicou, com delicadeza, mote em banalidade qualquer – a alma a lhe exigir digno estojo – caixa intacta.

Saiu com o embrulho, imerso. Alegria permeada por estoicos relances. Ora a renúncia a partes da já minguada ração, ora as quentes noites dormidas sem ventilador. Dos instantes em que a vitrine fora ansiado espetáculo, dos dias que atravessara rua para não encará-la.

...

Chapinhou delírios nas poças armadilhadas por camuflante capim. Resvalou sonhos no barro endemoninhado, agarrando-se às solas, vomitando-se por cima do cromo. Derreou-se, por fim, de todas as ilusões, infectas e escoriadas por pés de um ônibus lotado.

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