– Posso te dar um pouco de carinho?
Tentei abrir os olhos, mas estavam febris, remelentos. A zonzeira da maldormida noite me acossava. Corpo moído, doído, insisti em fixar.
– Como assim, quem é você?
A visão morava fora da realidade, uma completa descontextualização. Agradável, entretanto. Tinha dois olhinhos azuis, pequenos, mas de inquietante vivacidade. Os cabelos não loiros, amarelos, contrastavam lisamente com a redondez das bochechas. A boca, miúda, mantinha o sorriso serelepe. Os bracinhos, as mãozinhas, tudo aspectava a uma bonequinha de biscuit. E estava ali, descalça e envelopada num vestido leve, muito azul, sentada ao pé da cama.
– Perguntei se posso te dar um pouco de carinho... Posso?
Tentei saltar, mas foi inútil. As amarras da prostração não cederam. Derribado, só fiz balbuciar um "anrã", um aquiescente e depauperado "anrã". A cabeça afundou no travesseiro, que fervia. Senti a fragrância suave exalando da mão que se aproximava. Tocou-me os cabelos e os acariciou, com uma leveza inimaginável para aquela mão. Sedado pelo mimo, adormeci.
O rascar do trilho da cortina violentou meu sono. O sacerdote viera ministrar a extrema. Fitou-me, algo perplexo, algo atemorizado. Estaria diante de um milagre ou do próprio demônio?
Espantos dissipados, tratei de forrar o bucho, que há muito já não se ocupava. Enquanto corria o repasto, perguntei aos de casa sobre a insólita visita. Entreolharam-se, pantomimas reticentes, exclamativas.
– Guria? – indagaram, em uníssono.
– Sei lá, acho que delirei. A febre...
Portões cadeados, câmeras, a gentarada, tudo conspirava em desfavor. Acabei por desistir.
À noite, o noticiário destacaria a trágica queda de uma garota, que despencara da cobertura, na festa dos seus quinze anos. As imagens restringiram o foco a um desencontrado par de sandálias de salto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário