segunda-feira, 18 de agosto de 2014

À Minha Primeira Namorada

Esta, apesar de ridícula, não é de amor uma carta.

Sabe, M., há coisas na vida que escapam da compreensão. Por mais que tenhamos certeza de possuir todas as peças, não há solução para o encaixe. Dois anos antes de te conhecer, matei aula para me inscrever no exame de seleção, lá no Julinho. Junto com alguns colegas, eles formalizariam, não eu. Fui na base da folia, sem nada. Depois, corri atrás. O que suscita é que passei, não eles.

Cooptaram-me, ano final, a secretário da agremiação estudantil. Supersônica carreira, alcei voo à presidência. Havia, então, que reunir-me com os líderes. O tumulto já se calculava, pois a casa andara fora do arrumo por tempos. Não bastasse a tremura pelo enfrentamento, havia dois olhos acesos, fixos, diretos. Desorientadores. Paradoxalmente, aquiescentes. Desejei que a ladainha terminasse de uma vez. Eu sei, M., a natureza privilegiou a alma feminina, desnecessário tripudiar: é claro que tu serias a última a sair!

A casualidade proporcionou os encontros. Será? Bem, se ela não desse conta do recado, o meu pescoço o faria. E te cerquei, te encurralei contra a parede para roubar o primeiro beijo. Lembras? Fugiste. Mãos dadas, às escondidas, tão e só. Nunca rolou o beijo. Estranho namoro estranho.

Um dia, o último antes das férias, só disse: – "Lá vem o meu. Tchau!". Embarquei e sumi.

Nunca entendeste. Nem eu. Mas a deusa dos mal-resolvidos casos se interpõe e instiga. Visitei o cliente e me deparei contigo. Constrangido, tive que te encarar. Perplexo, ao te saber noiva e, apesar de, a confissão: o diário que só continha jota, jota, jota...

Ou, daquela vez, em que levo meu pai àquele bairro e paramos justamente em frente a tua casa! Como não sucumbir?

A festa de empresa no clube onde ministrávamos curso foi o viés mais mefistofélico – e essa palavra é parte do teu legado – dessa deusa, que insiste em se ocultar sob os véus do casual. Aproveitei o intervalo e, irrefreável, desci. Dançamos. Entre sombras e luminescências, no palco do irreal, vez primeira acolho teu peito no meu. Na saída, o táxi. Chovia, lembras? Roçamos os lábios e senti mais que pingos a me umectar a face.

Absorto, os mosaicos da Rua da Praia se fundiam com a desordem das ideias. "Pensando na vida?" Assaltado pela mão que segurava o braço, me rendi. Como resistir, M.? Quase uma dezena de anos e a mesma incandescência a me perscrutar. O composto precipitado de casamentos caóticos emanaria comburente.

Confrangidas esperas em furtivas manhãs de sábado, o fetiche da boina donde escorriam os reflexos dos cabelos e o jogo de esquivas e tergiversações se incumbiriam da derrocada. M., tu só querias viver um sonho, lembras? Sem culpas. Ao amparo da mais sagaz hermenêutica. Enfim, os lábios que antes só esgrimiam intermináveis colóquios, baixaram a guarda.

Três dias, três semanas, três meses? Não sei, M., foi tão etéreo, tão atemporal...

Repiso o exórdio, as primícias. Não de amor é uma carta. Por inexata, premissa também não é. Talvez só o cenário para exercitar o monólogo shakespeariano, com alquebrada indagação: por que nunca brigamos?


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