sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Tocata

                 Gérson era viúvo, apesar de uns dez anos a menos que o pai dela. Sócios no escritório de advocacia, encontravam-se, vez por semana, bem cedo. Acertos que não convinham à vista de outros. Talvez por respeito, ou por falta de família, era ele quem vinha. Acostumara-se àquele ritual que bem já se cumpria há uns dois anos.

                 De primeiro, nem ligava. Reunião de velhos. Melhor. Salvava-se um tempo para não ser xereteada nas fugidias entradas à Internet, espiar recados no Orkut, satisfazer o feminil do ego. De uns tempos para cá se alvoroçaria com as suas vindas. Não conseguia entender. Ridículo! Chegara a desenhar os nomes atravessando coração: Gérson e Daniela. Lendo-os, soaram Nélson Mandela. Que tosco! Riscou-os com raiva. Rasgou a folha. Picou-a em pedacinhos tais que nunca fossem mais juntados.

                 Era terça, dia de Gérson vir confabular. Espalhara livros e cadernos por cima da mesa de jantar, pretextando insuficiente a escrivaninha do quarto. Gostava de observar os movimentos daquelas mãos, o jeito com que dava uma batida seca na borda do cinzeiro e depois pousava o cigarro, suavidade e precisão a encaixar no descanso.

                 Numa outra, a mãe a chamara para o café. Teria que se trocar, vestir-se. Forjado descuido, colocaria somente bermudas, a blusa solta, deixando transparecer os seios quando atravessasse a sala. Sentiu um leve arrepio que não saberia distinguir se do frio matinal ou do flagrante.

                 Tijolos e telhas na mochila, a pressa atrasada, o ponto de ônibus se achegando, dissipavam. Encontraria Manú e já tititizariam sobre o garoto do último ano que seguia pouco mais à frente. De volta, subiria, direto, as escadas que davam para o quarto, sequer tomando conhecimento daquilo que rodeava. Mas depois de se gastar em livros e entediar-se com o MSN, apagaria a luz e o pensamento desceria. O pequeno cinzeiro prateado, que acomodava um só cigarro, se avolumava na mente. O cinzeiro de Gérson. Ninguém fumava naquela casa, portanto era dele. Só dele. Somente ele o tocava, o conspurcava com cinzas, o fazia tinir.

                 Ria-se do quanto diziam da feminina malícia. Atraíra, insinuante, as atenções do terceiranista. Ficaram. Quando as carícias escorregariam pelas nádegas, teve asco. Não que não desejasse. A precipitação só lhe fez recuar diante do imediato, do comum. Não se sentia envolvida. Num relance, veria as mãos de Gérson. Sentira-se menos que um cinzeiro. Um depósito de dejetos, abjetas intenções.

                 Cuidava não despertar suspeitas. Alternava a mesa de jantar nos dias e estancava-se no quarto na maior parte das terças. Era quando tirava os fones, se encostava ao marco da porta e fechava os olhos. Odiaria algum passarinho que ousasse piar. Odiaria sua mãe abrindo e fechando gaveta dos talheres. Odiaria o mundo. Tudo, enfim, que pudesse ensurdecer aquela alva mão com pelos castanhos, dedos definidamente másculos, unhas tão bem recortadas, a executar insólita melodia de nota e tempo únicos.

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