sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Teste

A sinuosidade do vapor flui do líquido negro e aromático, levemente balançada a cada baforada. O ar carregado de frio faz barreira invisível e, à fumaça expelida, segue-se um rastro de humores condensados. Por uma imprecisão temporal, os pensamentos se misturam a este desarranjo, desabando sobre a nitidez da louça. Descruzo as pernas e as tranço, novamente, mudando o lado, reajeitando a saia para que volte a recobrir. O balcão começa a ganhar movimento. Entre sorvos e tilintares de colherinhas, as coxas recebem a onda tépida de indisfarçáveis desejos. Estico, instintivamente, o veludo riscado e vermelho. Não por pudor, mas é a frialdade que age. Os pequenos pontos róseos que acusam a temperatura na pele clara parecem acirrar os tilintares. Sinto a excitação, que só titubeia quando percorre o restante e estanca nos scarpins pretos. Agradeço calada a aprovação daqueles imbecis e refaço o batom corrompido pelo filtro do cigarro. Entre causa e efeitos, me sinto absolutamente segura. O mentol cuidará do hálito e a vaga será minha.



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