quinta-feira, 31 de julho de 2014

No Dia do Meu Funeral

Morri de agosto. É, o plantonista do SAMU atestou infarto agudo do miocárdio. Que cárdio? Que mio? Então tuo cardio fodeu com mio? Dá vontade de ressuscitar só pra dar uma aula prática sobre plurima mortis imago.

A praxe correu. Os papa-defuntos despejaram a massa ebórea no fundo fétido do rabecão. Depois, calça de linho, black blazer e uma gravata na camisa não estreada. Porra, mas esses caras ainda não aprenderam a dar um nó? Sabe aquela proverbial do burel e do monge? Pois, é. Não faz, mesmo. A gravata não é um adereço, um acessório. A gravata é um ritual. É a asa colorida do macho que vai conquistar a fêmea. É a expressão mais íntima dos estados da alma, quando eleita a estampa. Tem que ser discreta, mas distinta. Que a lâmina maior não trisque a fivela, mas se aproxime o quanto puder. A menor, oculta. Decentemente oculta. Não menos do que dois terços do comprimento da outra. Quando o movimento a exibir, saber-se-á metade da personalidade de quem a use. O ápice é o nó. Este tem que ser perfeito. Corrediço, que desfaça sem enredo. Suavemente finalizado e firme. Absolutamente na mesma linha do colarinho e sem folga. O nó é o coração da gravata. Nunca peça ajuda a uma mulher – o ato de se engravatar é exclusivamente masculino. As mulheres reconhecem sinais. Não confesse inabilidade.

O tempo passou para você? Pra mim, não! Daqui vejo tudo em real-time, modo acelerado. O precário esquife me acolheu. Aliás, não a mim – aos restos. Estou aqui. Ou ali. Igual câmera indiscreta de supermercado. Melhor, eu estava aqui. Agora, ali, na capela mortuária. Cercado de corvos, urubus, andorinhas e gaviões. Pombas-rolas e rolas nas pombas. As flores – ah, execráveis flores... O odor dos pavios ensebados, misturado ao das pétalas que degeneram. É nesta hora que gostaria de ter vivido circuncidado. Flor é bom pra se ter no jardim, presa ao pé, vivinha. Não, isto não foi um ato falho, uma irresignabilidade. Pode parecer irônico, mas foi reflexo.

Gosto de velórios. Sinto um metafísico frisson. Velório é um evento, uma farra. Tem o grupo das piadas. Do alheio viés, o outro. Penso na incongruência de não festejarem sonoramente o desencarnado. Cadê o meu Led? Quem sabe, um Sepultura... De quebra, Tristania. Não, não sou gótico, mas fissurado naquela vocalista. Pôu, já ouviram Deadlands? Deviam combinar: uns trazem o som, os demais a bebida, o orégano cor-de-rosa, o Pure Hemp. Pra mim, um johnniewalkinho. Posso até dar uns pegas, mas duvido que a viagem seja mais maluca do que este pó ao pó.

Um franciscano, catado de improviso, encomendou. Não lhe revelaram ser incovicto o defunto. Murmúrios. Bulício. Na alcova dos cava-covas, os cossacos do ofício (te vejo por, aí, “Lem”).

Veio, então, a tampa. Lamentei o nó.


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