segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sapateando no Pau

Hoje, aqui nos Pampas, é feriado. Comemora-se a Revolução dos maltrapilhos. Diz o hino gaúcho que a data é precursora da Liberdade, onde infiro que ela deva, então, começar na Estação das Flores. Independentemente (será que me antecipo?) das piadas pouco inteligentes acerca do modus vivendi et operandi dos nativos, quais grassam a orbi brasiliensis, tenho outras visões escabrosas.

Ainda vive, perto dos noventa, a lenda personificada em Paixão Côrtes, um tradicionalista que ousou corrigir o nem tão veríssimo Érico. Ele e o escritor prestaram consultoria à produção cinematográfica da trilogia O Tempo e o Vento. Foi daí que o Érico se viu em bombachas apertadas, quando Paixão apontou a inexistência de gaita àquela época, qual fora substituída, a contento, por uma viola.

Também, conforme Paixão, o Capitão Rodrigo jamais teria saído vivo do bolicho, acaso, na realidade, tivesse se espalhado, ufanando, aos quatro ventos, nos pequenos dar de prancha e nos grandes dar de talho.

O ideal Farroupilha creu no Iluminismo, o que, poucas décadas além, conferiria à Fortaleza o cognome de Cidade Luz. Aqui, durante os embates, se produziu um grupamento de lanceiros, arregimentado este só entre afro-espoliados. Heróis a cabresto.

Pois dia destes, adentrando um megabolicho para cambiar alguns caraminguás por escassa ração humana, me deparo com um loirão pilchado. A figuraça tinha a estatura de arrancar, de raspão, o batente de porta qualquer. O complexo arquétipo desfilava numa alegoria, onde o rabo-de-cavalo sobressaía o chapéu, desnudando a orelha que ostentava um brinco dourado. Da cintura para baixo, bombachas e alpercatas e, para completar, um lencinho colorido ao pescoço, disposto a la Clodovil.

Terra de Anas Terras, já não és mais reduto de separatistas. A Liberdade enfim chegou. Com as flores da Primavera, ainda hei de ver a prenda popozuda rebolar a chula, se agachando até roçar a vara estirada do guerreiro. Sem com Paixão.


mínimo glossário

Bolicho, s.m. Pequeno armazém de gêneros alimentícios, especiarias, fumo e apetrechos de montaria, que também serve bebidas, comum na região da campanha. Var.: boliche.

Chula, s.f. Dança folclórica gaúcha, onde um homem caracterizado executa movimentos de sapateado por sobre uma lança deitada ao solo, por toda a extensão desta e cuidando para não tocá-la, produzindo som ritmado com suas botas e esporas.

Pilcha, s.f. Apelido para dinheiro. Por extensão, indica a condição daquele que tem recursos, inclusive, para bem se vestir.

Pilchado, adj. Endinheirado. Por extensão, indica o bem vestir daquele que tem a pilcha.

Prenda, s.f. Moça ou mulher com boas qualidades; designativo afetuoso que é dado à.

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