quinta-feira, 13 de maio de 2010

Dona Brasília

                 Quando nos conhecemos, a antipatia foi recíproca. Ela, já balzaquiana, me olhou de cima a baixo, literalmente. Seu desdém me deixaria febril. Subi, acabrunhado, a escadaria que dava para o apartamento. Meu irmão abriu a porta: estava a salvo.

                 Era véspera da formatura do seu oficialato e não deixaria que ela estragasse. Bebi água e desejei encontrar moléculas de ar respirável em meio àquela secura. Depois, mais refeito do efeito rarefeito, fui à sacada e percorri os horizontes. Ah, eu sabia! Essa pavoa, que esnobara uma plástica niemeyeriana, deixava a descoberto seu passado bem vermelho e grudento.

                 Embustes desfeitos, Dona Brasília viraria referência, uma espécie de cafetina condescendente. Além deste, acolheu outros dois, do mesmo sangue. Que se formariam, então, pela UnB.

                 Aprendi a respeitá-la da forma mais cruel, quando o pai dos meus sobrinhos, agora coronel reformado, apontou insuficiências didáticas, aqui, em Gramado.

                 Quiseram as áleas da sorte que, mais uma vez, meu pé direito tocasse seu manto. A conexão forçada me obrigaria a passar a noite em seus braços, um tanto mais rechonchudos.

                 Este inesperado encontro nos fez bem. Havíamos amadurecido, reconhecido agruras da intempestividade. Fomos, mutuamente, cordiais. Ela até me deixaria, no decorrer, visitar minha mãe e, quando segui, augurou venturas.

                 Da viagem, guardo indeléveis momentos. Do sorriso quadradinho da absoluta musa, ao vivo e em sabores, pelo qual atravessei o país e, da volta, um luzeiro. A conexão fora noturna. Rápida, dessa vez. Vista embaçada com a saudade que já comprimia, vislumbrei, da janelinha, via-láctea em plano-piloto.

                 ...

                 Parabéns, Dona Brasília! Com toda a intimidade com que já me permito e ouso, acrescento: parabéns, cinquentona! Poderosa cinquentona...

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