terça-feira, 16 de março de 2010

Vidância

                 Olhei para o varal e as sinapses me enganaram. De novo, desafiando a erudição germânica, as colunas da Hélade e demais consagrações acadêmicas. A pita de aço revestida de plástico nascia de um dos caibros do telheiro da areazinha, indo morrer no estuque branco da casa dos fundos. O coração, peça fundamental em qualquer esforço, de quando em vez necessitava transplante, pois que taquaras também não são eternas. Creiam-me, corações não são órgãos interesseiros. Calunia-os quem os vê atraídos por airosas calcinhas, quando, malfadados, resistem à pressão de algum macacão encharcado. Por minha culpa ou êxito, este aí passa, a maior parte, vazio de obrigações.

                 Então a vida se traduz por um fio pairando ao nível estabilizado? Sinto esvaziá-los de esperanças, mas esta é a mais pura inverdade. Peço que não mirem seus trapos oscilando ao vento, pois irão incorrer na presunção de que admiram seus efêmeros estandartes. Ah, você dirá, mas no meu até colibris pousam! Ah, direi eu, é sagaz a natureza que defeca com tanta sutileza.

                 Apegando-me a este mote, recordei formigas em travessia. Não é maravilhosa a existência que serve, involuntariamente, a outras? Ora, esses serezinhos praguejantes e pelados, que nada mais fazem do que preservar a espécie... Muito indefinido, isso.

                 Convicto das bases da reengenharia, estendi a nota ao guichê. Vestindo apenas os mais velhos e descartáveis lábaros, conferi o destino impresso no resultado da permuta. Calma, Taquara, são só mais alguns passos até o boxe de partida! Na valise? Protetor solar, mel-conhaque-ervas finas e muitos frascos de repelente de muriçocas — herança da bestialidade racional. Ah, claro, dependurado ao pescoço, um desses acessórios incumbidos de carregar essencialidades cívicas.

                 Desci os degraus que aportavam à praia do Pinho e já tabuletas indicavam, com imprecisa decisão, meu rumo. Extasiado com a leveza do não ser, nem assimilei que, logo à primeira choupana, se desfraldava, em boas-vindas, uma toalha de banho.

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