sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dez Meses de Solidão


Beira - Ralf Siebiger

Então, o caminhão partiu. E tudo o que eu era, ou pudera ser, estava contido numa carroceria. Percebi, desta forma, que há algo de poetizável na miserabilidade.

O motorista e o ajudante ansiavam por se livrar daquele fardo. Isto ficou bem claro quando me desejaram um aliviado boa-sorte. Ainda antes de dobrar a esquina e sair da praia, o estrépito da descarga perderia volume, dissipando-se e se confundindo com o marulhar. Por um instante divaguei nessa transição. O Nordestão soprou forte. Fustigou os sentidos, me fazendo acordar para aquele Macondo.

Os móveis e cacaréus denotavam uma certa má vontade e passaram uma semana emburrados na sala. Pouco se importaram com o pisoteamento acrobático para resgatar um pó de café ou algum tempero. Azar deles! - pensava - enquanto os calcava com mais força ainda. Aos poucos foram cedendo e, se não foram proativos, logo abandonariam suas pirraças reacionárias.

Deixamos o reconhecimento do terreno para a manhã seguinte. Pouco havia a inventariar, afinal o quimbembe ficava encravado nos cômoros. Areia e margarida-das-dunas. Areia e erva-capitão. Areia e... Cinco pinheiros e um jambolão constituem a flora exótica, a marca do Homem. De onde sopra o Lestado, o sol arriça seus pelos quando trisca o gélido horizonte matinal. Com este referencial, posso dizer que o Sarará é o vizinho do Norte, e o seu Brasil o sulista. O primeiro é fixado, morador. O outro só usufrui.

Seria bem romântico e encantadoramente piegas dizer que a praia convida. Mas nós - os meus pés e eu - sabíamos que a lan-house mais próxima ficava a dois quilômetros. Contar quatro postos de salva-vidas me parecia menos cáustico do que rascar os chinelos no asfalto. Volto, então, a entrar em contato com um mundo inimaginável por estas bandas. Por aqui, as coisas se restringem à esfera do que é prático. E o que é prático? É tudo aquilo que se pode adquirir com emprego e renda. Como não há empregos, o tudo o mais é supérfluo.

A primavera já ascende a verão, quando faço contato com o primeiro pescador. Na verdade, eram dois, mas não era nenhum. Revisavam uma rede e indago qualquer coisa para assuntar. Joel se apresenta e se diz vizinho, mas o dono da rede é Orlando. Este, por sua vez, aceita meus préstimos em troca de ensinamento. Aos poucos vou desvendando e o descubro ali só por diletantismo. Passa uma semana por mês no litoral e depois foge para a cidade. Tornamo-nos amigos. Sempre que vem com o Trovão Azul, para puxar a corda da rede, bate ponto.

À noite, os casais de traineiras vêm namorar escondido. Ouço, por aí, que são os catarinas invadindo os mares gaúchos para fazer arrastão. Pura inveja. Não querem admitir que a costa é mulher sem atributos, feito tábua, sem recortes e remansos para aportar. Mas o olhar os trai quando passa um desses barcos. Dia desses contei seis pares. Tivesse mais um, formariam um soneto. De brilhantes, mas paupérrimas rimas. E quem se importa com a pobreza?

Bundas e tetas começam a aparecer, espalhadas em toalhas e esteiras. Junto com elas, as grifes pirateadas, as celulites, as obesidades mórbidas e os isopores com latinhas. Não faltaria o som pancadão. É engraçado observar que o mesmo mar que banha Miami Beach, aqui se espraia de forma mais comunista e menos consumista. Esporadicamente, batem à porta, atrás de alguma tainha ou filé de peixe-anjo. O sarilho herdado, que fica em frente à casa, os confunde. Indico o Babalu e o Mastiga, estes sim, pescadores de fato e direito.

Um motor acelerado rouba a atenção do telejornal. Vou espiar. O Sarará mete o nariz na fresta da porta, também. É um carro atolado. Mas ninguém vai até lá. De manhã, comento. Sarará sintetizaria: "Pleibói tem mais que se foder!". Cumprimento o Tintinho, o assunto vem, e ele dispara: "Pleibói tem mais que se foder!". Começo a entender a ética da beira. Engana-se quem pensa em ausência de solidariedade. Há, e muita. Mas malandro chapado não leva. Talvez, se pedisse. E ficou lá, acelerando, por mais umas duas horas, até chegar socorro.

Os pinheiros decíduos começam a forrar a areia com palha de filiformes folhas. Chega o tempo do desalvoroço, das aulas. Esse tempo passa uma peneira e vai sobrando só quem mora, quem se arrisca. É tempo de contemplação. Quando as sombras do poente matizam as areias, os verdes, as paredes. Quando os últimos fulgores enfatizam a brancura da espuma das ondas e a das asas das gaivotas.

A figura alta e robusta do Luiz contrasta com a praia vazia. Em largas passadas, vem me trazer correspondência. Fafá e Patesko vêm junto, cheirar a casa, o terreno. Já se acostumaram comigo. Ainda bem. O Patesko nem conta, é Beagle. Mas a cadela é mista com Fila, e aquelas mandíbulas fariam farinha de meus ossos. Parabenizo-o pelos sessenta e oito recém adquiridos. Pergunta pelo café, que é praxe da casa. Bebe e se retira, reforçando a data da reunião. É tesoureiro da associação dos mazelados da beira do mar. Mas o que impressiona, mesmo, é a obstinação pelas práticas ecoconservacionistas. De longe se veem as paliçadas que fez para reter a areia e reconstituir as dunas.

Os primeiros sinais do Minuano arrepiam. Hora de conferir as amarras das telhas. É comum de se ver pedras em cima dos telhados. O oceano se crispa, querendo correr para o Sul e o sopro contrariando. Portas e janelas são fechadas e trancadas. O que já era vazio, agora se torna fantasmagórico. O único movimento fica por conta da turma do Babalu, a Galera da Pesca, como se autodenominam. Lá se vão, aboletados no caminhão que puxará as cordas. E lá vêm de volta, com escasso pescado. O semblante estampa esta agonia. O tilintar compassado do cardã do Trovão Azul também rareia. Que venha melhor tempo.

O povo da beira fica ilhado. De frente para o mar, com as costas em ruas alagadas e ladeado pelos valões que transbordam com a enxurrada. Passei a entender o significado da pergunta mais recorrente, quando me anunciei morador: "Vais passar o inverno aqui?".

Agora, há pouco, olhei para uma pequena moita que se abrira em pétalas e respondi: "Não, não vou. Já passei.".


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