terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ENEM que eu queira...

Sabe, eu até gosto do Lula. Não no papel presidencial, até porque de papel, mesmo, creio que ele se limite ao de jornal. Quando muito, ao higiênico. Mas é um sujeito bem intencionado. Aí estão o sistema de cotas e o ENEM, dois métodos para burlar a metodocracia aristocrática do Vestibular.

Um dia já percorri este funil e obtive êxito. Sem cursinho, sem privilégios raciais e, muito menos, o aval da Polícia Federal. É, porque, querendo ou não, quem se beneficia de crime, criminoso também o é. Haja vista a falta de controle e seriedade, os calouros provindos deste beneplácito figuram, no mínimo, na ala da suspeição.

Nesse clima policialesco, terei que confessar que também fui apadrinhado. Tal qual alcaguete, declino o nome dos meus tutores: Ilka Costa Ritter, Dino Del Pino e Tapir Waterloo.

– “Quem são eles?” – e recebo um chute no saco da paciência.

– “Foram meus professores de Português no II grau” – respondo amuado.

– “Pagou pela aprovação?” – e me enfiam pontas de bambus por debaixo das unhas da mão esquerda, para que a outra ainda possa assinar a confissão.

– “Não, não paguei. Estudei em escola pública” – gemendo, procuro manter a altivez.

Entreolham-se, num misto de espanto e dúvida.

– “Quando foi isso?” – já dependurado pelos pés, o botijão envolto no cobertor atinge a região lombo-cervical, último reduto da minha idoneidade.

– “Na década de 70...” – as fricativas e oclusivas já saindo africadas, junto ao fluxo sem trema.

De repente param e ficam me observando. Uma moça com cara de Erenice, que já preparava os eletrodos, é dispensada. Cortam a corda e deixam que me esborrache.

– “Vai pra casa, sem-futuro! Tu não tem a menor chance de ser nada nessa vida. Nem presidente”.

Saio, primeiro me arrastando, depois capengueando. Quase um símio. Antes de cruzar o portal da liberdade, me escoro ao marco. Um istmo sináptico me advém: "E nem quererei”.


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