quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Minha Rua Não Tem Palmeiras


Foto: Alisson Fernandes

Minha rua é socialista. Quando chove, há barro para todos. Lá, a democracia é totalitária. Quiseram calçá-la, base de rateio. Uns poucos declinaram, continuou crua. Ideologicamente, prefiro. Seria brindar incapacidades.

Na minha rua, economia imita globalização e autossustentabilidade. Tem Paulinho, que apara mato, colore grade, maquia muro. Iara pergunta hora e cronometra salgado quente aos aniversários. Caia fundo de churrasqueira, Rogério improvisará lata. Puxadinho é com o Gérson: cerveja servida, barateia mão-de-obra, afina acabamento. Coelho limpa carburador, põe ponto ao motor. Depois, divide birita e costela. Compradas com os caraminguás do socorro. A mulher lava pra vizinha defronte. Sem pudor nem preconceito. Necessidade. Nem a coleta do lixo é discriminada. Mesmo assim, garrafas vão separadas. Retornam com detergente. Feito por lá. Procedência se conhece, nota faltará. Política, a rua dispensa: Estado não cumpre, não interfira.

Rua minha é solidária. Kombi de Paulo faz ambulância e mula. Viajar é deixar chave-da-casa com vizinho. Pátio assume estacionamento alternativo: guarda carro de garagem reformada, de genro fugindo do sogro e do filho que empreendeu picaretear. A Titica é de todos e de ninguém. Só ameaça, não crava. Acostumou-se ao relento, renega abrigo. Vigia o pedaço e acua jaguara que se atreva. A rua lhe dá sustento.

Quem não mais comparece é chimarrão-beira-de-calçada do Valdir. Morreu, povo da rua enterrou. Não me animo substituí-lo. Faço, então, só distribuir limões-bergamota. Que se dão às pencas. Declaro parte nesse quinhão que nem é posse.

Minha rua não tem palmeiras. Mas, na hora do Angelus, piam aves-marias.


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