terça-feira, 9 de novembro de 2010

Feira Por Fora, Feia Por Dentro

Está aí, pra quem quiser ver, a tão festejada Feira do Livro da Portinho dos Casais. Já na casa dos 56, incrementada por mais e faraônicos estandes das rádios com estúdios ao vivo, das tevês, do Senado Federal e do não-sei-mais-o-quê, em avanço sufocante às maloquinhas dos livros.

Olha, pouco me importa a autofagia capitalista, pois não estão livres os senhores livreiros de também alimentá-la. Pois que se prestem, então, a acepipes. Só que – e que se entenda bem esse quê – o consumidor, o cliente, enfim, o leitor, quererá algo em troca da propaganda.

Ávido e grávido, por alvíssaras e de expectativas, cruzo os bretes qual boi passivo e paciente, à cata de dois autores. E haja paciência! Porque basta um casal empacar com o seu carrinho de bebê que o andor congestiona. O suficiente para que se acerquem duas caras muito mal-intencionadas. E o olhar da Lei? Periférico. Amplamente periférico.

De mais a mais, a Praça da Alfândega está em obras. De restauração, dizem. O que confere um cenário apocalíptico ao acontecimento. Um atestado de incongruências político-administrativas, que nos envergonha – a nós, gaúchos – perante o contingente turístico ali afluído. E dizer que a este vexame se pretenda caráter internacional... Alinhado ao Paixão Côrtes, patrono desta edição, resta exclamar a mim mesmo: “– Mas bah, tchê!”.

Volto aos heróicos farrapos desta revolução: os livros. Já sem mãos para tanto material elucidativo – Guia da Feira, Revista da Feira, Mapa da Feira – não encontro birosca alguma que represente meus eleitos. Fico até meio sem jeito quando sugiro à atendente do estande informatizado que tente, talvez, o Google. Mais, ainda, quando ela efetivamente o faz.

Saio de fininho, mentalizando graças por não ter sido assaltado. Para não dizer que “de mãos abanando", arremato um Alcy Cheuiche e um Armindo Trevisan, num desses balaios de saldos. Pela estupefaciente bagatela de dois reais, cada. Lembram do preço do quilo do frango no início do Plano Real? Mas bah, tchê! Pois é, e com direito a todas as griffes da feira. Desde a sacolinha, até os marcadores de página.

Pouco depois, acomodado num dos assentos daquilo cuja passagem ida-e-volta pagaria ambos, folheei Cheuiche: "Até o cidadão mais desatento sabe que os jacarandás estão em floração. É só tirar um pouquinho o nariz dos seus negócios e verá também as primeiras flores amarelas dos guapuruvus. E quando os jacarandás e guapuruvus estão floridos é época de Feira do Livro".

O ônibus arranca. Segundos antes de contornar o Gasômetro, apazigua-me espreitar uma nesga da condescendência primaveril derramando seus tépidos e derradeiros versos por sobre as folhas do tempo.


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